Eu, por boa parte da minha infância e adolescência, rejeitei tudo que se relacionasse à cultura chinesa. No início, provavelmente por ser uma cultura completamente alheia à criação que recebera de minha babá brasileira. Depois, como uma forma de me encaixar na escola alemã em que estudava. E mais tarde, como uma maneira de protesto por ser obrigada a frequentar aulas de chinês aos domingos.
O que eu não sabia é que, mesmo sem querer, essa cultura que eu tanto recusava seria pano de fundo para muitas de minhas memórias. Lembro-me perfeitamente das tardes de domingo, em que meus pais e alguns amigos, imigrantes como eles, se reuniam na loja (onde era mais fresco), depois dos longos almoços, e passavam horas contando histórias e cantando músicas chinesas que eu não entendia, acompanhando a fita que tocava no gravador.
Esses dias, ouvi numa festa de aniversário uma das músicas que escutávamos naquelas tardes musicais. Descobri que a cantora era Teresa Teng, umas das maiores cantoras de Taiwan, dona de hits românticos conhecidos em toda a Ásia. Eram músicas de que meu pai gostava muito e que minha mãe até hoje canta com voz afinadíssima. Aos primeiros acordes de "Tian Mi Mi", uma das preferidas de seu Roberto, percebi, com surpresa e nostalgia, que sou muito mais chinesa do que pensava (ou gostaria de admitir).
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
fast forward
Ontem dona Alice e eu fomos à festa de aniversário de 80 anos (81, segundo o calendário chinês) de um tio-avô. A festa foi uma ocasião quase de gala, terno e gravata, tafetá e salto alto, e inúmeros parentes vindo do exterior para prestigiar. Três gerações lotavam o salão do restaurante chinês mais caro de São Paulo.
A festa aconteceu nos moldes chineses: muitas fotos, muitos discursos, brindes emocionados, muita comida e microfone aberto para karaokê. Mas com o usual rigor e formalidade asiáticos, ninguém contava com homenagens tão sinceras, nem com demonstrações de carinho tão genuínas quanto as presenciadas na noite de ontem.
A primeira delas foi um pequeno filme, montado a partir de fotos, antigas e recentes, da trajetória de meu tio-avô: a vida em Taiwan; a mudança para o Brasil com cinco filhos, a caçula ainda no colo; o começo da vida no novo país, primeiro com uma floricultura, depois com um bazar; os filhos crescidos, depois os netos; as viagens, as festas, os parentes, os amigos. Enquanto o filme passava no telão, notei que que dona Alice, assim como eu, estava com os olhos marejados. Ao olhar ao redor, vi que outras pessoas também enxugavam, disfarçadamente, os olhos úmidos. Aquela história era, de certa forma, a história de todos nós.
A segunda homenagem foi uma música chamada "Coração Grato" (Gan En De Xin), cantada a plenos pulmões, e em meio a muitas lágrimas, por filhos, netos e agregados, acompanhados baixinho pelos convidados, inclusive dona Alice. Ao final da música, os cinco filhos, emocionados, abraçaram o pai. O octagenário reagiu como qualquer pai chinês da velha guarda pouco habituado a arroubos afetivos: um sorriso sem graça, um abraço rápido e um tapinha nas costas.
Para dona Alice, a festa foi uma espécie de fast-forward de sua vida daqui 20 anos. Hoje com 60 anos, uma de suas maiores preocupações é a velhice. Viúva, tem medo de ficar sozinha num país que não é seu. Tem medo de ser abandonada num asilo pelos filhos. Seu plano, que relata num tom de brincadeira mas que tem um quê de verdade, é contratar Cema, a balconista que já é quase da família, para cuidar dela quando ficar velhinha.
Mas ontem à noite, ao assistir, emocionada, as cenas que se desenrolavam à nossa frente, dona Alice viu que o futuro e a velhice podem não ser tão assustadores. Meu tio-avô, como ela, também atravessou oceanos, fez a vida com um bazar, criou filhos e estava envelhecendo num país estrangeiro. E lá estava ele, aos 80 anos, saudável, cercado de amigos e família, dono de uma vida intensa e feliz. Talvez um sinal de que, pelo menos pelos próximos 20 anos, dona Alice não tem com que se preocupar.
A festa aconteceu nos moldes chineses: muitas fotos, muitos discursos, brindes emocionados, muita comida e microfone aberto para karaokê. Mas com o usual rigor e formalidade asiáticos, ninguém contava com homenagens tão sinceras, nem com demonstrações de carinho tão genuínas quanto as presenciadas na noite de ontem.
A primeira delas foi um pequeno filme, montado a partir de fotos, antigas e recentes, da trajetória de meu tio-avô: a vida em Taiwan; a mudança para o Brasil com cinco filhos, a caçula ainda no colo; o começo da vida no novo país, primeiro com uma floricultura, depois com um bazar; os filhos crescidos, depois os netos; as viagens, as festas, os parentes, os amigos. Enquanto o filme passava no telão, notei que que dona Alice, assim como eu, estava com os olhos marejados. Ao olhar ao redor, vi que outras pessoas também enxugavam, disfarçadamente, os olhos úmidos. Aquela história era, de certa forma, a história de todos nós.
A segunda homenagem foi uma música chamada "Coração Grato" (Gan En De Xin), cantada a plenos pulmões, e em meio a muitas lágrimas, por filhos, netos e agregados, acompanhados baixinho pelos convidados, inclusive dona Alice. Ao final da música, os cinco filhos, emocionados, abraçaram o pai. O octagenário reagiu como qualquer pai chinês da velha guarda pouco habituado a arroubos afetivos: um sorriso sem graça, um abraço rápido e um tapinha nas costas.
Para dona Alice, a festa foi uma espécie de fast-forward de sua vida daqui 20 anos. Hoje com 60 anos, uma de suas maiores preocupações é a velhice. Viúva, tem medo de ficar sozinha num país que não é seu. Tem medo de ser abandonada num asilo pelos filhos. Seu plano, que relata num tom de brincadeira mas que tem um quê de verdade, é contratar Cema, a balconista que já é quase da família, para cuidar dela quando ficar velhinha.
Mas ontem à noite, ao assistir, emocionada, as cenas que se desenrolavam à nossa frente, dona Alice viu que o futuro e a velhice podem não ser tão assustadores. Meu tio-avô, como ela, também atravessou oceanos, fez a vida com um bazar, criou filhos e estava envelhecendo num país estrangeiro. E lá estava ele, aos 80 anos, saudável, cercado de amigos e família, dono de uma vida intensa e feliz. Talvez um sinal de que, pelo menos pelos próximos 20 anos, dona Alice não tem com que se preocupar.
domingo, 19 de dezembro de 2010
dezembro(s)
Dezembro é um mês memorável para toda uma geração de adolescentes do Campo Belo. Com o frenesi de Natal, a única balconista que minha mãe mantinha o ano todo não dava conta do movimento e era preciso contratar uma legião de ajudantes - adolescentes em férias, a maioria do bairro, que queriam complementar a mesada com um dinheirinho extra no final do ano.
O trabalho não era fácil: atendíamos clientes, colocávamos preços em mercadorias, arrumávamos as vitrines. Aprendia-se por observação, porque na correria não dava tempo de ensinar nada a ninguém. A circulação era difícil, porque tínhamos que desviar de caixas, pacotes, sacolas, etiquetas, rolos de papel de presente. Só parávamos para almoçar e tomar lanche. Quando a correria acalmava um pouco, descansávamos lá dentro, cada um com uma tesoura, sentados nos degraus, enrolando fitinhas para colocar nos presentes. As horas passavam voando. No final do dia, a garotada mal se aguentava em pé, o cansaço estampado nas camisetas sujas e nos pés inchados.
Mas apesar da rotina puxada, eram 24 dias de muita diversão também. Passávamos horas testando brinquedos, experimentando perfumes, desvendando o funcionamento de relógios e jogos eletrônicos, dando risada de cada descoberta e cada erro. Todos os dias alguém aparecia com uma piada nova, com alguma história engraçada, com algum episódio inusitado com clientes. Meu pai, sempre bom anfitrião e adepto da filosofia de que "Saco vazio não para em pé", tratava a garotada a pão-de-ló. Até hoje ele é lembrado por isso. Quanto mais perto do Natal, melhores ficavam as refeições. Na véspera do Natal, a tradição do almoço era um pernil gigante, preparado pela dona Celme, que dava para alimentar uma tropa de 50 marmanjos.
Dona Alice tem ótimas lembranças desses 34 dezembros que passou atrás dos balcões. A loja sempre cheia e abafada, a energia da criançada que viu crescer e o clima de festa tornavam o cansaço de se administrar o bazar no Natal - trabalho que às vezes ia madrugada adentro - muito mais divertido. Na hora que os ajudantes iam embora, minha mãe sempre recomendava: "Descanse bastante, porque ainda temos xx dias até o Natal!"
Na tarde do dia 24, o bazar Liang parecia palco de uma batalha vencida. As vitrines vazias, todo mundo exausto. Era hora de trocar presentes do amigo secreto - sempre de chocolate - e dar a dona Alice as flores compradas às escondidas, com um cartãozinho assinado por todos os ajudantes daquele ano. Minha mãe tem todos os cartões guardados até hoje.
Passado tanto tempo desde os primeiros Natais, os ajudantes ainda fazem parte da vida do Bazar Liang. A maioria casou, alguns já tiveram filhos, outros mudaram de país, mas quando dá, passam pelo bazar para dar um beijo em dona Alice e relembrar histórias de dezembros passados: William, Ana Cristina e Verônica; Andrea e Margareth; Li Tumtum e Li Chuan; Cristiane e Daniela; Adriana e Marcelo; Aline; Tica; Karina; e, lógico, nossa querida e sempre presente Cema.
A todos vocês, nosso muito obrigada. Vocês ainda fazem os Natais no bazar Liang muito mais felizes.
O trabalho não era fácil: atendíamos clientes, colocávamos preços em mercadorias, arrumávamos as vitrines. Aprendia-se por observação, porque na correria não dava tempo de ensinar nada a ninguém. A circulação era difícil, porque tínhamos que desviar de caixas, pacotes, sacolas, etiquetas, rolos de papel de presente. Só parávamos para almoçar e tomar lanche. Quando a correria acalmava um pouco, descansávamos lá dentro, cada um com uma tesoura, sentados nos degraus, enrolando fitinhas para colocar nos presentes. As horas passavam voando. No final do dia, a garotada mal se aguentava em pé, o cansaço estampado nas camisetas sujas e nos pés inchados.
Mas apesar da rotina puxada, eram 24 dias de muita diversão também. Passávamos horas testando brinquedos, experimentando perfumes, desvendando o funcionamento de relógios e jogos eletrônicos, dando risada de cada descoberta e cada erro. Todos os dias alguém aparecia com uma piada nova, com alguma história engraçada, com algum episódio inusitado com clientes. Meu pai, sempre bom anfitrião e adepto da filosofia de que "Saco vazio não para em pé", tratava a garotada a pão-de-ló. Até hoje ele é lembrado por isso. Quanto mais perto do Natal, melhores ficavam as refeições. Na véspera do Natal, a tradição do almoço era um pernil gigante, preparado pela dona Celme, que dava para alimentar uma tropa de 50 marmanjos.
Dona Alice tem ótimas lembranças desses 34 dezembros que passou atrás dos balcões. A loja sempre cheia e abafada, a energia da criançada que viu crescer e o clima de festa tornavam o cansaço de se administrar o bazar no Natal - trabalho que às vezes ia madrugada adentro - muito mais divertido. Na hora que os ajudantes iam embora, minha mãe sempre recomendava: "Descanse bastante, porque ainda temos xx dias até o Natal!"
Na tarde do dia 24, o bazar Liang parecia palco de uma batalha vencida. As vitrines vazias, todo mundo exausto. Era hora de trocar presentes do amigo secreto - sempre de chocolate - e dar a dona Alice as flores compradas às escondidas, com um cartãozinho assinado por todos os ajudantes daquele ano. Minha mãe tem todos os cartões guardados até hoje.
Passado tanto tempo desde os primeiros Natais, os ajudantes ainda fazem parte da vida do Bazar Liang. A maioria casou, alguns já tiveram filhos, outros mudaram de país, mas quando dá, passam pelo bazar para dar um beijo em dona Alice e relembrar histórias de dezembros passados: William, Ana Cristina e Verônica; Andrea e Margareth; Li Tumtum e Li Chuan; Cristiane e Daniela; Adriana e Marcelo; Aline; Tica; Karina; e, lógico, nossa querida e sempre presente Cema.
A todos vocês, nosso muito obrigada. Vocês ainda fazem os Natais no bazar Liang muito mais felizes.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
constante evolução
Na correria do mês de dezembro, dona Alice mal tem tempo para almoçar. O bazar vive lotado, clientes chegam com listas quilométricas e minha mãe, na adrenalina do balcão, esquece da fome. Quando dá uma brecha, ela corre para casa para comer alguma coisa. As refeições são sempre feitas às pressas, interrompidas por telefonemas, fornecedores e clientes que só aceitam ser atendidos por ela.
Eram quase duas da tarde quando ela conseguiu parar para almoçar hoje. Depois de devorar a comida em tempo recorde, o telefone começou a tocar insistentemente. Dona Alice estava escovando os dentes e não conseguiu atender. Começou a tocar de novo e enquanto descia as escadas correndo, minha mãe soltou, como se a pessoa da outro lado da linha pudesse ouvi-la: "Calma, cara (sic)! Não me faz pressão porque senão eu fico desequilibrada!"
É verdade o que dizem por aí: o português - pelo menos o de dona Alice - é uma língua em constante evolução.
Eram quase duas da tarde quando ela conseguiu parar para almoçar hoje. Depois de devorar a comida em tempo recorde, o telefone começou a tocar insistentemente. Dona Alice estava escovando os dentes e não conseguiu atender. Começou a tocar de novo e enquanto descia as escadas correndo, minha mãe soltou, como se a pessoa da outro lado da linha pudesse ouvi-la: "Calma, cara (sic)! Não me faz pressão porque senão eu fico desequilibrada!"
É verdade o que dizem por aí: o português - pelo menos o de dona Alice - é uma língua em constante evolução.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
pequenas burocracias
Acho que a primeira vez que eu preenchi um formulário na minha vida eu tinha nove anos. Eram os cartões de matrícula da Escola União. Eu ia entrar na quarta-série, meu irmão na segunda e minha irmã no pré-primário. Meus pais, com pouco domínio do português e sem tempo para essas burocracias, deixaram a meu encargo o preenchimento das fichas verdes.
Com o tempo, o número de responsabilidades aumentou. Eu tinha que decifrar os comunicados da então Telesp, do Banco Bradesco, do Clube Banespa. Aos 14 anos, já era responsável por ler - e interpretar - resultados de exames e receitas médicas para a família. Fui eu quem confirmei para meu pai, depois de ler cuidadosamente o laudo, que meu avô tinha câncer de próstata.
Eu não me me questionava quanto a essas funções. Para mim, era o que todo adolescente fazia. Era parte do processo de virar gente grande.
Dona Alice nunca prestou muita atenção a essas coisas. Em sua rotina maluca de bazar e filhos, ela não ia a bancos, supermercados, não lia as correspondências oficiais que chegavam em casa. Suas consultas médicas eram marcadas, no início, por meu pai, depois por mim. E ela só ia se fosse acompanhada.
Hoje viúva e com filhos que quase não vê, dona Alice passa por um curso intensivo em vida burocrática. Sem ter quem faça para ela, ela assumiu as tarefas. Ontem, anunciou que havia renovado o seguro do carro. Anteontem, escutei uma conversa dela pelo telefone com a Cielo, negociando o valor da mensalidade. Na semana passada, ela marcou a consulta com o otorrino e foi sozinha até lá. Marcou os exames e foi sozinha até o Delboni fazê-los ("Mas Li, no jejum pode tomar água?"). Na semana retrasada, foi fazer um depósito no Banco Santander, onde nunca tinha posto os pés: "Cheguei lá e fiquei meio perdida. Mas aí perguntei e eles me ensinaram a tirar a senha!" Outro dia, caiu um temporal que acabou com a luz no bairro. A luz voltou logo depois, mas a TVA não. Dona Alice não teve dúvidas: ligou para o número que estava na TV para descobrir o que acontecia e fez a atendente dar uma previsão de quando o serviço ia estabilizar. Quando cheguei em casa, ela assistia a novela das 8, como se nada tivesse acontecido.
É quase um contrasenso: dona Alice cruzou o mundo para chegar no Brasil, fez a vida, criou três filhos, e ainda não conseguia se achar nas pequenas burocracias da vida. Mas está aprendendo. E eu assisto, orgulhosa, minha mãe virar gente grande.
Com o tempo, o número de responsabilidades aumentou. Eu tinha que decifrar os comunicados da então Telesp, do Banco Bradesco, do Clube Banespa. Aos 14 anos, já era responsável por ler - e interpretar - resultados de exames e receitas médicas para a família. Fui eu quem confirmei para meu pai, depois de ler cuidadosamente o laudo, que meu avô tinha câncer de próstata.
Eu não me me questionava quanto a essas funções. Para mim, era o que todo adolescente fazia. Era parte do processo de virar gente grande.
Dona Alice nunca prestou muita atenção a essas coisas. Em sua rotina maluca de bazar e filhos, ela não ia a bancos, supermercados, não lia as correspondências oficiais que chegavam em casa. Suas consultas médicas eram marcadas, no início, por meu pai, depois por mim. E ela só ia se fosse acompanhada.
Hoje viúva e com filhos que quase não vê, dona Alice passa por um curso intensivo em vida burocrática. Sem ter quem faça para ela, ela assumiu as tarefas. Ontem, anunciou que havia renovado o seguro do carro. Anteontem, escutei uma conversa dela pelo telefone com a Cielo, negociando o valor da mensalidade. Na semana passada, ela marcou a consulta com o otorrino e foi sozinha até lá. Marcou os exames e foi sozinha até o Delboni fazê-los ("Mas Li, no jejum pode tomar água?"). Na semana retrasada, foi fazer um depósito no Banco Santander, onde nunca tinha posto os pés: "Cheguei lá e fiquei meio perdida. Mas aí perguntei e eles me ensinaram a tirar a senha!" Outro dia, caiu um temporal que acabou com a luz no bairro. A luz voltou logo depois, mas a TVA não. Dona Alice não teve dúvidas: ligou para o número que estava na TV para descobrir o que acontecia e fez a atendente dar uma previsão de quando o serviço ia estabilizar. Quando cheguei em casa, ela assistia a novela das 8, como se nada tivesse acontecido.
É quase um contrasenso: dona Alice cruzou o mundo para chegar no Brasil, fez a vida, criou três filhos, e ainda não conseguia se achar nas pequenas burocracias da vida. Mas está aprendendo. E eu assisto, orgulhosa, minha mãe virar gente grande.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
saci
Da série "Confusões de dona Alice"
Dona Alice mantém religiosamente uma lista de coisas a fazer. Todas as noites ela se senta no sofá, pega sua agenda e começa a enumerar todas as tarefas que precisa cumprir no dia seguinte, seja chamar o encanador para consertar a torneira da cozinha, seja marcar uma consulta com o otorrino, seja rearranjar a vitrine da loja.
Na lista de ontem constava: ligar para a Toyota para comprar novas calotas para a Hilux, que teve as suas roubadas. O ladrão, imagino que por falta de tempo, levara apenas as do lado direito.
À noite, dona Alice me passou o relatório: "Li, hoje liguei lá na Toyota para saber se eles têm as calotas da Hilux. O moço me disse que precisava do saci."
- "Ele precisa do quê, mãe?"
- "Do saci. O número do saci."
- "Mãe, é chassi, não saci. Repete: chassi."
- "Saci."
- "Chassi, mãe."
- "Chachi."
- "Não, mãe. Chassi."
- "Li, me fala logo onde está esse número que amanhã eu vou ligar lá de novo e ver se eles têm a calota."
E foi para a cozinha fazer o jantar.
Dona Alice mantém religiosamente uma lista de coisas a fazer. Todas as noites ela se senta no sofá, pega sua agenda e começa a enumerar todas as tarefas que precisa cumprir no dia seguinte, seja chamar o encanador para consertar a torneira da cozinha, seja marcar uma consulta com o otorrino, seja rearranjar a vitrine da loja.
Na lista de ontem constava: ligar para a Toyota para comprar novas calotas para a Hilux, que teve as suas roubadas. O ladrão, imagino que por falta de tempo, levara apenas as do lado direito.
À noite, dona Alice me passou o relatório: "Li, hoje liguei lá na Toyota para saber se eles têm as calotas da Hilux. O moço me disse que precisava do saci."
- "Ele precisa do quê, mãe?"
- "Do saci. O número do saci."
- "Mãe, é chassi, não saci. Repete: chassi."
- "Saci."
- "Chassi, mãe."
- "Chachi."
- "Não, mãe. Chassi."
- "Li, me fala logo onde está esse número que amanhã eu vou ligar lá de novo e ver se eles têm a calota."
E foi para a cozinha fazer o jantar.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
piquenique no cemitério
Um dos meus maiores suplícios quando eu era pequena era ir ao cemitério no dia de Finados.
Não que eu ficasse impressionada com a morte ou coisa do gênero. Longe disso. Minha maior preocupação era com o que as outras pessoas iam pensar do nosso piquenique sobre o túmulo da minha bisavó.
Explico: na cultura chinesa budista, depois que a pessoa morre, ergue-se um pequeno altar para ela dentro de casa. Lá você coloca uma foto do falecido e uma imagem do Buda (ou alguma variação do gordinho sorridente), que são reverenciados com a queima de incenso, no começo e ao final do dia. Duas vezes por mês são colocadas no altar frutas ou outras guloseimas - uma oferta singela para quem não está mais conosco. Depois que o incenso acaba de queimar, a comida pode ser consumida.
No dia de Finados fazíamos exatamente o mesmo ritual, só que a céu aberto e com uma pequena plateia. Chegávamos cedo, com todo o aparato no Cemitério Getsêmani, no Morumbi: flores, incenso, muita comida e um mundaréu de gente, porque famílias chinesas nunca são pequenas.
Enquanto os adultos ajeitavam as flores e a comida - ovos cozidos, frutas de todo tipo, nomi-fan (uma espécie de bolinho de arroz grudento, que pode ser doce ou salgado) - sobre o túmulo de minha bisavó, as crianças pequenas apostavam corrida pelo cemitério. As mais velhas, como eu, iam de lápide em lápide fazer as contas para saber com quantos anos a pessoa tinha morrido. Se fosse muito jovem, tentávamos adivinhar a causa da morte e criávamos histórias mirabolantes, no melhor estilo "Venha ver o pôr-do-sol", conto de Lígia Fagundes Telles.
Quando tudo estava pronto, nós éramos chamados para "bai-bai": cada um recebia o incenso aceso e, segurando-o na frente do corpo com as duas mãos, fazia a reverência à bisavó. Depois que todos houvessem passado diante do túmulo, a comida era distribuída, o bate-papo engatava e a ocasião se transformava num grande piquenique. Os visitantes e funcionários do cemitério observavam, sem disfarçar, aquela cena que parecia fora de lugar. E eu, no meu desconforto adolescente, nunca comia nada: achava tudo absolutamente constrangedor.
Ontem pela manhã cumprimos novamente nosso rito anual de dia de Finados. Mas passados tantos anos desde minhas primeiras visitas ao Getsêmani, não levamos flores apenas para minha bisavó. Esse ano levamos seis vasos de crisântemos brancos, inclusive para meu avô e meu pai, que nos deixaram cedo demais.
O resto da família foi chegando aos poucos: as matriarcas carregadas de flores, os anciãos cada vez mais curvados, primos da minha geração acompanhados da prole, que explorava feliz os gramados enormes e coloridos. As flores foram colocadas nos diferentes túmulos, enquanto as últimas notícias do ano eram trocadas com detalhes e risadas. Não havia um pingo de tristeza naquele encontro.
Foi aí que me dei conta: com o tempo, o dia de Finados se tornou para nós uma espécie de Thanksgiving. É a única data no ano em que encontramos todos da família, em que colocamos a vida em dia com pessoas queridas, mas que infelizmente encontramos pouco.
Esse ano houve piquenique no cemitério também. Menos organizado, porque as crianças não são mais tão obedientes, nem tão chinesas quanto minha geração. Mas como nos velhos tempos, os anciãos ajeitaram as flores e a comida sobre o túmulo da bisavó e um a um, os adultos pegaram o incenso e fizeram uma reverência a ela.
Depois que o último incenso acabou de queimar, a comida foi distribuída entre as quase 40 pessoas presentes. E eu, pela primeira vez, me arrisquei a pegar alguma coisa, enquanto tentava explicar a um tio-avô por que continuava solteira.
Não que eu ficasse impressionada com a morte ou coisa do gênero. Longe disso. Minha maior preocupação era com o que as outras pessoas iam pensar do nosso piquenique sobre o túmulo da minha bisavó.
Explico: na cultura chinesa budista, depois que a pessoa morre, ergue-se um pequeno altar para ela dentro de casa. Lá você coloca uma foto do falecido e uma imagem do Buda (ou alguma variação do gordinho sorridente), que são reverenciados com a queima de incenso, no começo e ao final do dia. Duas vezes por mês são colocadas no altar frutas ou outras guloseimas - uma oferta singela para quem não está mais conosco. Depois que o incenso acaba de queimar, a comida pode ser consumida.
No dia de Finados fazíamos exatamente o mesmo ritual, só que a céu aberto e com uma pequena plateia. Chegávamos cedo, com todo o aparato no Cemitério Getsêmani, no Morumbi: flores, incenso, muita comida e um mundaréu de gente, porque famílias chinesas nunca são pequenas.
Enquanto os adultos ajeitavam as flores e a comida - ovos cozidos, frutas de todo tipo, nomi-fan (uma espécie de bolinho de arroz grudento, que pode ser doce ou salgado) - sobre o túmulo de minha bisavó, as crianças pequenas apostavam corrida pelo cemitério. As mais velhas, como eu, iam de lápide em lápide fazer as contas para saber com quantos anos a pessoa tinha morrido. Se fosse muito jovem, tentávamos adivinhar a causa da morte e criávamos histórias mirabolantes, no melhor estilo "Venha ver o pôr-do-sol", conto de Lígia Fagundes Telles.
Quando tudo estava pronto, nós éramos chamados para "bai-bai": cada um recebia o incenso aceso e, segurando-o na frente do corpo com as duas mãos, fazia a reverência à bisavó. Depois que todos houvessem passado diante do túmulo, a comida era distribuída, o bate-papo engatava e a ocasião se transformava num grande piquenique. Os visitantes e funcionários do cemitério observavam, sem disfarçar, aquela cena que parecia fora de lugar. E eu, no meu desconforto adolescente, nunca comia nada: achava tudo absolutamente constrangedor.
Ontem pela manhã cumprimos novamente nosso rito anual de dia de Finados. Mas passados tantos anos desde minhas primeiras visitas ao Getsêmani, não levamos flores apenas para minha bisavó. Esse ano levamos seis vasos de crisântemos brancos, inclusive para meu avô e meu pai, que nos deixaram cedo demais.
O resto da família foi chegando aos poucos: as matriarcas carregadas de flores, os anciãos cada vez mais curvados, primos da minha geração acompanhados da prole, que explorava feliz os gramados enormes e coloridos. As flores foram colocadas nos diferentes túmulos, enquanto as últimas notícias do ano eram trocadas com detalhes e risadas. Não havia um pingo de tristeza naquele encontro.
Foi aí que me dei conta: com o tempo, o dia de Finados se tornou para nós uma espécie de Thanksgiving. É a única data no ano em que encontramos todos da família, em que colocamos a vida em dia com pessoas queridas, mas que infelizmente encontramos pouco.
Esse ano houve piquenique no cemitério também. Menos organizado, porque as crianças não são mais tão obedientes, nem tão chinesas quanto minha geração. Mas como nos velhos tempos, os anciãos ajeitaram as flores e a comida sobre o túmulo da bisavó e um a um, os adultos pegaram o incenso e fizeram uma reverência a ela.
Depois que o último incenso acabou de queimar, a comida foi distribuída entre as quase 40 pessoas presentes. E eu, pela primeira vez, me arrisquei a pegar alguma coisa, enquanto tentava explicar a um tio-avô por que continuava solteira.
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