Da série "Confusões de dona Alice"
Geralmente não fazemos as refeições com a televisão ligada, mas nos últimos tempos dona Alice passou a almoçar assistindo à TV. Como almoça sozinha na loja, enche sua tigelinha de arroz e liga o aparelho, muitas vezes mais pelo barulho do que pela programação em si.
Outro dia, entre uma reunião e outra, fui almoçar com ela no bazar. Ela já estava a postos, tigelinha cheia, pratos na mesa e a TV ligada. Começamos a conversar, enquanto a Globo transmitia alguma matéria bobinha, provavelmente algo sobre a Xuxa ou a estreia da próxima novela das seis.
Irritada, dona Alice pegou o controle remoto.
- "Nossa, que besteira. Vamos assistir outra coisa. Que canal tem aquele programa Aretha?", perguntou.
Não entendi o que ela quis dizer. Aretha é o nome da nossa golden retriever. Será que era alguma série sobre animais? Ou algum programa novo sobre cães que ela havia achado enquanto zapeava durante o almoço?
- "Aretha, mãe? Que programa é esse? É sobre bichos?"
- "Não, filha. Aquele programa, como chama... Aretha. Cidade Aretha."
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
orgulho
Dona
Alice continua em desvantagem quando se trata da prova "Quem tem mais
netos" na comunidade chinesa. Enquanto seus amigos contabilizam netos que
aumentam em progressão geométrica, dona Alice tem que se contentar em mimar a
Aretha, nossa golden retriever. Diz que não se importa, mas sempre conta com
uma certa inveja as façanhas dos netos de amigos. Um que começou a andar, outro
que já fala chinês fluente, outro que acabou de ser aceito na escola americana.
E a filha de fulano de tal, que acabou de dar o terceiro neto HOMEM para a família? Quanto orgulho!
Minha
mãe vibra com as histórias de seus amigos, sem deixar de sonhar com o dia em que
também poderá contar as façanhas de seus próprios netinhos.
Recentemente,
meu irmão foi aceito num programa de mestrado em Sorbonne, na França. As
universidades americanas são velhas conhecidas da comunidade - na minha época,
a medida do sucesso de uma família chinesa era ter um filho numa universidade
americana. Já as instituições europeias são um mistério. Pouquíssimos amigos do
círculo de minha mãe conhecem as universidades no Velho Continente. Ela mesma,
quando ouviu falar de Sorbonne pela primeira vez, fez cara de ponto de
interrogação. "Sorbonne?", perguntou. "Como 'suborno'?"
Quando
soube do calibre da instituição, quis sair contando por aí. "Minha
vontade é alugar um carro com um alto-falante e avisar todos os meus
amigos!", comemorava. Mas qual a graça de contar uma novidade desse
tamanho se as pessoas para quem contaria não tinham nenhuma referência sobre
ela?
Dona
Alice não teve dúvidas: foi descobrir como se falava Sorbonne em chinês. Mas
ciente de que só aquele nome não seria capaz de gerar o espanto e admiração que
esperava pela façanha de seu filho - afinal, ela comemora façanhas muito
menores dos netos de seus amigos! -, pediu para meu irmão listar algumas
pessoas importantes que já haviam passado por lá. Meu irmão citou alguns nomes. Para não esquecer, dona Alice tomou nota.
Além
da grafia de Sorbonne em chinês, estão na lista: CATOSO (Fernando Henrique
Cardoso), Gioqim Barbosa (Joaquim Barbosa) e Vitor Hugo. Em português e em
chinês, para poder se orgulhar nas duas línguas.
E
enquanto dona Alice conta das conquistas de seus filhos, nós nos orgulhamos dela por motivos que vão muito além da entrada numa
universidade. Com a palavra, meu irmão:
"Hoje
faz exatamente 1 mês e 20 dias que cheguei em Paris.
Antes
de embarcar para Europa, no aeroporto, fiquei me perguntando se sentiria
saudades do Brasil. Afinal de contas, em tempos de Internet e telefones
celulares, onde todo mundo e o mundo todo anda conectado o tempo inteiro, achei
que essa palavra tão única da língua portuguesa tinha perdido um pouco da sua
força: ficou com saudades, basta ligar. Pronto, matou a saudade.
Para
minha total surpresa, aconteceu justamente o contrário. Fazia muito tempo que
eu não sentia tanta falta da minha família, dos meus amigos, da comida, do
clima, das referências, das conversas e da cultura que deixei no Brasil. Dá até
vergonha de falar isso, sendo que não se passaram nem dois meses. Além disso,
não é que eu esteja em Tristão da Cunha, a ilha mais isolada do mundo. Eu estou
em Paris, a cidade mais visitada do mundo. A única que pode ser chamada de Luz.
E
ainda assim, a saudade do Brasil faz tudo por aqui parecer meio escuro. Às
vezes, escuro até demais.
Não
por acaso, fiquei pensando na minha mãe. Em como teria sido pra ela ter saído
de Taiwan para ficar indefinidamente no Brasil, sem prazo para voltar. Como
será que ela se sentia no Brasil quando pensava na família, nos amigos, na
comida, no clima, nas referências, nas conversas e na cultura que tinha deixado
naquela minúscula ilha perdida no Pacífico? Sem Internet. Sem telefone.
É
um absurdo sequer cogitar qualquer comparação. Eu moro sozinho em um
apartamento, minha mãe dividia com meu pai um quartinho nos fundos de uma casa
na Vila Mariana. Eu estou a apenas 12 horas de avião da minha vida em SP; ela
estava a mundos e mundos de distância de tudo que ela conhecia. Eu cheguei
sabendo o idioma; Dona Alice chegou falando “sim”, “não”, “por favor” e
“obrigado”. Eu vim para cá em busca de um simples diploma; minha mãe, em busca
de uma nova vida.
Porém,
eu sei que em breve, a saudade que eu sinto do Brasil vai diminuir e que esse
período de adaptação vai ser apenas isso: um período de adaptação. O que eu não
sei – e é algo em que penso cada vez mais frequentemente desde que cheguei aqui
– é se minha mãe ainda está vivendo este período. Tudo indica que sim, caso
contrário minha irmã não teria tantas histórias emocionantes e engraçadas para
contar neste blog e o Bazar da Dona Alice não seria o lugar tão especial que é
para tantas pessoas.
E
se este for o caso, se de fato minha mãe vem vivendo este período tão difícil
de adaptação há quase 40 anos, então eu confesso que ela conseguiu algo que eu
achava impossível de acontecer: fazer com que eu a admirasse e a respeitasse
ainda mais."
domingo, 10 de junho de 2012
a partida
O telefone tocou às 16h do sábado. Minha avó, que morava em Taiwan, há tempos já dava sinais de que não duraria muito tempo. Com quase 90 anos e na cadeira de rodas, já estava bem debilitada. Segundo os médicos, era só uma questão de tempo.
No dia 04 de dezembro minha tia ligou para dizer que o fim parecia próximo, era melhor minha mãe se preparar para uma viagem de emergência. Compramos a passagem e no dia seguinte, dona Alice estava num avião da Swiss Airlines rumo a Taiwan.
Não era a primeira vez que minha mãe passava por isso. Em janeiro de 1986 ela também recebeu uma ligação de Taiwan, avisando que seu pai, que há anos sofria de um câncer de estômago agressivo, não aguentaria por muito tempo. Dona Alice não pensou duas vezes: comprou uma passagem a preços exorbitantes e embarcou assim que pôde. Meu avô, que nunca conheci, aguentou mais uma semana. Faleceu com minha mãe, sua primogênita e filha preferida, ao lado dele.
Não sabíamos se esse seria o caso com minha avó. Primos e tios nos passavam updates da condição dela via MSN e Facebook (a beleza da tecnologia), já que minha mãe estaria incomunicável pelas próximas 30 horas. As atualizações eram otimistas: tudo indicava que ela resistiria mais alguns dias.
Não resistiu. Minha avó faleceu duas horas antes de dona Alice pousar em Taipei. No aeroporto, sua família a esperava com as notícias. Por tão pouco, dona Alice não conseguiu se despedir.
Quem nos avisou aqui no Brasil foi minha irmã, que mora na Suíça.
- "Mamãe ligou aqui chorando e disse que a A-Ma faleceu duas horas antes de ela chegar. Não deu tempo de ela se despedir. Ela disse que a A-Ma não quis esperá-la." Minha irmã também chorava.
Minha mãe sempre carregou consigo uma culpa: a de não ter cumprido seu papel de filha mais velha. Mudou-se cedo para o Brasil e deixou a responsabilidade de cuidar de seus pais na velhice para sua terceira irmã, que foi a fiel escudeira de minha avó até sua morte. Aquele era o castigo final. Na imaginação vívida de minha mãe, minha avó não a havia esperado de propósito. Uma merecida punição pelos anos de ausência.
Como manda a tradição chinesa, minha avó não foi enterrada imediatamente. A melhor data para o enterro precisava ser escolhida e durante quase três semanas, o caixão ficou fechado em casa. Minha avó morava no interior de Taiwan e sua casa, como a nossa aqui no Brasil, ficava nos fundos de um comércio: um armazém, conhecido por toda a cidade, e que com o tempo passou a ser mais fonte de distração do que lucro de fato. Uma espécie de sala de estar aberta ao público.
A notícia da morte de minha avó correu a vizinhança e todos foram prestar homenagens, como num velório que se estende por dias a fio. A tradição exige que um membro da família fique sempre junto com o caixão. Tios, primos e agregados se revezavam na tarefa durante o dia. O turno da noite ficou reservado para minha mãe. Com o fuso horário ainda fora de sincronia, a missão caiu como uma luva para dona Alice.
E nessas noites, minha mãe lentamente redescobriu sua própria família, que há tempos havia deixado para trás. No silêncio das madrugadas, tornou-se confidente de seus sobrinhos, relembrou histórias de infância com suas irmãs e se atualizou das notícias do bairro onde cresceu. A dor de não ter conseguido se despedir ainda apertava o coração, mas dona Alice aos poucos se deu conta de que minha avó não havia lhe deixado uma punição, mas um presente: naquelas noites ao lado dela, minha mãe reencontrou suas origens.
No dia 04 de dezembro minha tia ligou para dizer que o fim parecia próximo, era melhor minha mãe se preparar para uma viagem de emergência. Compramos a passagem e no dia seguinte, dona Alice estava num avião da Swiss Airlines rumo a Taiwan.
Não era a primeira vez que minha mãe passava por isso. Em janeiro de 1986 ela também recebeu uma ligação de Taiwan, avisando que seu pai, que há anos sofria de um câncer de estômago agressivo, não aguentaria por muito tempo. Dona Alice não pensou duas vezes: comprou uma passagem a preços exorbitantes e embarcou assim que pôde. Meu avô, que nunca conheci, aguentou mais uma semana. Faleceu com minha mãe, sua primogênita e filha preferida, ao lado dele.
Não sabíamos se esse seria o caso com minha avó. Primos e tios nos passavam updates da condição dela via MSN e Facebook (a beleza da tecnologia), já que minha mãe estaria incomunicável pelas próximas 30 horas. As atualizações eram otimistas: tudo indicava que ela resistiria mais alguns dias.
Não resistiu. Minha avó faleceu duas horas antes de dona Alice pousar em Taipei. No aeroporto, sua família a esperava com as notícias. Por tão pouco, dona Alice não conseguiu se despedir.
Quem nos avisou aqui no Brasil foi minha irmã, que mora na Suíça.
- "Mamãe ligou aqui chorando e disse que a A-Ma faleceu duas horas antes de ela chegar. Não deu tempo de ela se despedir. Ela disse que a A-Ma não quis esperá-la." Minha irmã também chorava.
Minha mãe sempre carregou consigo uma culpa: a de não ter cumprido seu papel de filha mais velha. Mudou-se cedo para o Brasil e deixou a responsabilidade de cuidar de seus pais na velhice para sua terceira irmã, que foi a fiel escudeira de minha avó até sua morte. Aquele era o castigo final. Na imaginação vívida de minha mãe, minha avó não a havia esperado de propósito. Uma merecida punição pelos anos de ausência.
Como manda a tradição chinesa, minha avó não foi enterrada imediatamente. A melhor data para o enterro precisava ser escolhida e durante quase três semanas, o caixão ficou fechado em casa. Minha avó morava no interior de Taiwan e sua casa, como a nossa aqui no Brasil, ficava nos fundos de um comércio: um armazém, conhecido por toda a cidade, e que com o tempo passou a ser mais fonte de distração do que lucro de fato. Uma espécie de sala de estar aberta ao público.
A notícia da morte de minha avó correu a vizinhança e todos foram prestar homenagens, como num velório que se estende por dias a fio. A tradição exige que um membro da família fique sempre junto com o caixão. Tios, primos e agregados se revezavam na tarefa durante o dia. O turno da noite ficou reservado para minha mãe. Com o fuso horário ainda fora de sincronia, a missão caiu como uma luva para dona Alice.
E nessas noites, minha mãe lentamente redescobriu sua própria família, que há tempos havia deixado para trás. No silêncio das madrugadas, tornou-se confidente de seus sobrinhos, relembrou histórias de infância com suas irmãs e se atualizou das notícias do bairro onde cresceu. A dor de não ter conseguido se despedir ainda apertava o coração, mas dona Alice aos poucos se deu conta de que minha avó não havia lhe deixado uma punição, mas um presente: naquelas noites ao lado dela, minha mãe reencontrou suas origens.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
descrições
Engraçadas as expressões que as pessoas usam para descrever outras. Numa troca de emails recente sobre uma proposta de trabalho, a moça que me escreveu acabou me encaminhando - acidentalmente, imagino - uma outra mensagem, onde eu era descrita como a "chinesa que tem MTB". Morri de dar risada, porque já fui descrita de várias maneiras, mas nunca como uma chinesa com um registro profissional.
Contei para dona Alice, que também caiu na gargalhada. Começamos a conversar sobre como o email certamente tinha chegado a mim por engano, porque, embora engraçado, me parecia pouco polido se referir a alguém dessa forma numa mensagem profissional.
Dona Alice, conhecedora do temperamento da filha, não perdeu tempo:
- Mas Li, melhor ser a chinesa que tem MTB do que a chinesa que tem TPM, né?
Caso encerrado.
Contei para dona Alice, que também caiu na gargalhada. Começamos a conversar sobre como o email certamente tinha chegado a mim por engano, porque, embora engraçado, me parecia pouco polido se referir a alguém dessa forma numa mensagem profissional.
Dona Alice, conhecedora do temperamento da filha, não perdeu tempo:
- Mas Li, melhor ser a chinesa que tem MTB do que a chinesa que tem TPM, né?
Caso encerrado.
originalidade
Os Natais das crianças Liang nunca foram muito parecidos com os que víamos na TV. Árvore de Natal começamos a ter só depois de grandes - com todas as mercadorias, nossa casa, que ficava nos fundos da loja, não tinha espaço para mais nada. Os presentes eram escolhidos do bazar mesmo, na manhã do dia 25, quando algum brinquedo legal ficava nas prateleiras. Papai Noel dizendo Ho-ho-ho era praticamente uma lenda urbana.
Quando era pequena, a falta de clima de Natal em casa me incomodava. Via os clientes num frenesi de compras, escolhendo uma infinidade de presentes para seus filhos - brinquedos que nós, crianças, ajudávamos a escolher e empacotar - e pensava: "Puxa, eu também queria um Natal assim...". Lembro-me de uma véspera de Natal que passei chorando. Devia ter uns sete anos. Depois que as lágrimas secaram, resolvi que não adiantaria nada ficar sentada na cama me lamentando. Tinha que partir para a ação. Maquinei um plano mirabolante para fugir de casa e encontrar uma família que me proporcionaria um Natal como aqueles que eu via nas propagandas de supermercado. Quando já tinha tudo planejado em detalhes na minha cabeça, meu plano desmoronou diante do obstáculo supremo: e se tivesse uma barata na loja?
Acabei desistindo e caí no sono. O Natal passou e a vida seguiu.
Hoje, tantos anos depois, já desenvolvemos as nossas próprias tradições natalinas, que embora em nada lembrem os anúncios da TV, representam a nossa comemoração e o nosso espírito de gratidão por mais um ano que se vai. A troca de presentes nunca foi grande parte disso.
Mas dona Alice sempre surpreende. Ano passado, depois de um dezembro conturbado, com viagem inesperada a Taiwan por causa de minha avó e o cansaço típico da última semana pré-Natal, minha mãe interrompeu nosso jantar de Natal para me dar um pacotinho, embrulhado no papel de presente do bazar.
- "O que é isso, mãe?" - disse, entre uma garfada e outra de bacalhau.
- "Abre, filha! É o seu presente de Natal!"
Quando abri, era uma caixinha de madeira que eu havia trazido para ela de Moçambique. Olhei para ela confusa. Ela estava me dando um presente que eu havia dado a ela? Dentro, um bilhetinho. E nele, meu presente de Natal.
"Querida filha: Feliz natal. Vale de uma (bolsa de couro) para você. Presente de natal. Mamãe te amo muito. Liang Yi Mei"
Dona Alice vivia reclamando que eu andava sempre com a mesma bolsa surrada. O vale-bolsa foi a forma mais prática que encontrou de me presentear. Com uma boa dose de criatividade e bom humor, minha mãe arrancou de mim um sorriso que não conseguiria com nenhum outro presente.
Ela bem que tentou me arrastar até o shopping para trocarmos o vale-presente. Fomos algumas vezes, mas não consegui achar nada. Nenhuma das bolsas me parecia tão bonita quanto aquele bilhetinho que havia recebido. Acabei ficando com minha velha bolsa (em atividade até hoje) e guardei o vale com carinho na minha caixa de cartas.
Quando era pequena, a falta de clima de Natal em casa me incomodava. Via os clientes num frenesi de compras, escolhendo uma infinidade de presentes para seus filhos - brinquedos que nós, crianças, ajudávamos a escolher e empacotar - e pensava: "Puxa, eu também queria um Natal assim...". Lembro-me de uma véspera de Natal que passei chorando. Devia ter uns sete anos. Depois que as lágrimas secaram, resolvi que não adiantaria nada ficar sentada na cama me lamentando. Tinha que partir para a ação. Maquinei um plano mirabolante para fugir de casa e encontrar uma família que me proporcionaria um Natal como aqueles que eu via nas propagandas de supermercado. Quando já tinha tudo planejado em detalhes na minha cabeça, meu plano desmoronou diante do obstáculo supremo: e se tivesse uma barata na loja?
Acabei desistindo e caí no sono. O Natal passou e a vida seguiu.
Hoje, tantos anos depois, já desenvolvemos as nossas próprias tradições natalinas, que embora em nada lembrem os anúncios da TV, representam a nossa comemoração e o nosso espírito de gratidão por mais um ano que se vai. A troca de presentes nunca foi grande parte disso.
Mas dona Alice sempre surpreende. Ano passado, depois de um dezembro conturbado, com viagem inesperada a Taiwan por causa de minha avó e o cansaço típico da última semana pré-Natal, minha mãe interrompeu nosso jantar de Natal para me dar um pacotinho, embrulhado no papel de presente do bazar.
- "O que é isso, mãe?" - disse, entre uma garfada e outra de bacalhau.
- "Abre, filha! É o seu presente de Natal!"
Quando abri, era uma caixinha de madeira que eu havia trazido para ela de Moçambique. Olhei para ela confusa. Ela estava me dando um presente que eu havia dado a ela? Dentro, um bilhetinho. E nele, meu presente de Natal.
"Querida filha: Feliz natal. Vale de uma (bolsa de couro) para você. Presente de natal. Mamãe te amo muito. Liang Yi Mei"
Dona Alice vivia reclamando que eu andava sempre com a mesma bolsa surrada. O vale-bolsa foi a forma mais prática que encontrou de me presentear. Com uma boa dose de criatividade e bom humor, minha mãe arrancou de mim um sorriso que não conseguiria com nenhum outro presente.
Ela bem que tentou me arrastar até o shopping para trocarmos o vale-presente. Fomos algumas vezes, mas não consegui achar nada. Nenhuma das bolsas me parecia tão bonita quanto aquele bilhetinho que havia recebido. Acabei ficando com minha velha bolsa (em atividade até hoje) e guardei o vale com carinho na minha caixa de cartas.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
lucky long long
Long Long foi atropelado às 9h da manhã do dia 3 de janeiro. Um filhotinho de vira-lata, que resolveu mudar de ideia no meio da avenida movimentada. Meu irmão não teve tempo de brecar. Ao perceber o que havia acontecido, parou o trânsito para socorrer o pobrezinho. Comoção na rua Funchal, no Itaim. Algumas pessoas pararam para ajudar. Uma moça se colocou à disposição para ajudar no que fosse preciso. Uma senhora fez questão de acompanhar meu irmão numa terça-feira passada entre consultas, exames e radiografias, que constataram que o cãozinho havia sofrido uma fratura e precisaria de cuidados especiais. Passou três dias no hospital e foi batizado de Long Long - dragãozinho, em chinês. 2012 é o ano do dragão.
Eu e dona Alice, em férias em Santa Catarina, soubemos da saga através de um telefonema desesperado de meu irmão, pedindo o telefone da veterinária. Recebíamos updates detalhados à medida que a condição do cãozinho melhorava. Long Long, no final daquela semana, já estava fora de perigo.
E no final daquela semana, meu irmão também já estava completamente apaixonado por ele. Era um filhote de boa índole, dizia ele. E se olhasse bem, dava para ver que ele tinha algo de golden retriever, continuava. "Li, você não quer sondar com a mamãe se a gente não pode ficar com o Long Long?"
Não precisei ir muito longe. Dona Alice na hora sacou nosso plano genial e acabou com ele com um "não" categórico: não havia espaço para mais um cão na casa; a Aretha não ia gostar da competição; e no final das contas seria mais um cachorro sob responsabilidade dela.
O que ela não esperava é que o cãozinho fosse, de fato, tudo aquilo que meu irmão dizia. De volta a São Paulo, fizemos uma campanha online para encontrar um dono para Long Long. Já recuperado do susto mas ainda não 100%, ele passava os dias na loja, atrás do balcão. E bastaram dois dias para ele cair nas graças de dona Alice e dos clientes.
- "Vocês sabiam que ele me segue para onde eu for?"
- "Hoje ele conseguiu dar a volta em meio quarteirão! A patinha está melhorando."
- "Passou aqui um senhor querendo adotá-lo, mas acho que devíamos ficar mais um pouco com ele..."
Long Long recebeu tratamento VIP. Em sete anos, nossa golden retriever nunca viu um pedaço de carne. O cachorrinho acidentado foi tratado a arroz, frango, cebola e shoyu durante toda sua estadia.
Depois de quase duas semanas, Long Long foi adotado por um casal simpático que - surpresa! - caiu de amores por ele logo de cara. Beatriz, que acompanhou e auxiliou na história desde o início, e seu marido Gustavo se encarregaram dos cuidados que ele ainda precisava receber e o levaram para morar num sítio lindo, cheio de espaço, onde ainda teria a companhia de três pastoras alemãs para a folia.
Na hora da despedida, dona Alice quase não conseguiu conter as lágrimas. Fez uma marmita para o Long Long, brincou mais um pouquinho com ele, mas não conseguiu acompanhá-los até o elevador. Sentada no sofá, olhos marejados, confessou: "Puxa, estou arrependida de não ter ficado com ele."
Long Long, por sua vez, sarou completamente, ganhou uma nova família e mudou de nome: Lucky. Não tinha como ser outro.
Eu e dona Alice, em férias em Santa Catarina, soubemos da saga através de um telefonema desesperado de meu irmão, pedindo o telefone da veterinária. Recebíamos updates detalhados à medida que a condição do cãozinho melhorava. Long Long, no final daquela semana, já estava fora de perigo.
E no final daquela semana, meu irmão também já estava completamente apaixonado por ele. Era um filhote de boa índole, dizia ele. E se olhasse bem, dava para ver que ele tinha algo de golden retriever, continuava. "Li, você não quer sondar com a mamãe se a gente não pode ficar com o Long Long?"
Não precisei ir muito longe. Dona Alice na hora sacou nosso plano genial e acabou com ele com um "não" categórico: não havia espaço para mais um cão na casa; a Aretha não ia gostar da competição; e no final das contas seria mais um cachorro sob responsabilidade dela.
O que ela não esperava é que o cãozinho fosse, de fato, tudo aquilo que meu irmão dizia. De volta a São Paulo, fizemos uma campanha online para encontrar um dono para Long Long. Já recuperado do susto mas ainda não 100%, ele passava os dias na loja, atrás do balcão. E bastaram dois dias para ele cair nas graças de dona Alice e dos clientes.
- "Vocês sabiam que ele me segue para onde eu for?"
- "Hoje ele conseguiu dar a volta em meio quarteirão! A patinha está melhorando."
- "Passou aqui um senhor querendo adotá-lo, mas acho que devíamos ficar mais um pouco com ele..."
Long Long recebeu tratamento VIP. Em sete anos, nossa golden retriever nunca viu um pedaço de carne. O cachorrinho acidentado foi tratado a arroz, frango, cebola e shoyu durante toda sua estadia.
Depois de quase duas semanas, Long Long foi adotado por um casal simpático que - surpresa! - caiu de amores por ele logo de cara. Beatriz, que acompanhou e auxiliou na história desde o início, e seu marido Gustavo se encarregaram dos cuidados que ele ainda precisava receber e o levaram para morar num sítio lindo, cheio de espaço, onde ainda teria a companhia de três pastoras alemãs para a folia.
Na hora da despedida, dona Alice quase não conseguiu conter as lágrimas. Fez uma marmita para o Long Long, brincou mais um pouquinho com ele, mas não conseguiu acompanhá-los até o elevador. Sentada no sofá, olhos marejados, confessou: "Puxa, estou arrependida de não ter ficado com ele."
Long Long, por sua vez, sarou completamente, ganhou uma nova família e mudou de nome: Lucky. Não tinha como ser outro.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
dia de festa
Aretha, nossa golden retriever, completou sete anos em setembro do ano passado. E na ausência de crianças na família - para desespero completo de dona Alice - as festinhas são dadas para ela. Essa história começou quando ela fez seis anos e fizemos um ímã de geladeira para distribuir aos clientes que são fãs de nossa mascote.
Para o seu sétimo aniversário, a comemoração foi mais elaborada. Além do ímã de geladeira teve também lembrancinha: florzinhas de balas de goma, criação da Cema, rainha das invenções.
E teve festa non-stop. Um que passava, afagava, outro que vinha dar um biscoitinho. Aretha ganhou carinho e presentes o dia todo. Teve até uma cliente que apareceu na loja perguntando se haveria festa.
- "Como você sabe?"
- "Ué, hoje não é aniversário da Aretha? Tenho o ímã do ano passado na minha geladeira!"
Aretha chegou em nossa casa com pouco mais de dois meses e já completou sete anos. E é estranho pensar que usamos o mesmo calendário para marcar datas tão opostas: Aretha chegou exatamente um mês depois de meu pai ter partido, no final de 2004.
Nesses sete anos, Aretha mostrou que pode haver alegria depois da tristeza. E mostrou que a vida é assim, feita de altos e baixos, momentos bons e ruins. Até ela, que nos resgatou de um abismo do qual achávamos que não sairíamos, já passou por isso: dois tumores, duas cirurgias, pós-operatórios de deixar qualquer um de cabelo em pé e a prova de quem nem só os gatos têm sete vidas.
Hoje Aretha é uma jovem senhora e seu rosto começa a ficar branco. Não corre com o mesmo vigor, se cansa bem mais facilmente. Mas ainda é a fiel escudeira de minha mãe e a maior atração do bazar da dona Alice. Aretha segue ensinando que a vida é bem mais simples do que pensamos: com boa comida, água limpinha, um pufe fofo, amigos queridos e muito carinho, não dá para querer muito mais.
Parabéns, Arethinha! E que venham os próximos sete!
Para o seu sétimo aniversário, a comemoração foi mais elaborada. Além do ímã de geladeira teve também lembrancinha: florzinhas de balas de goma, criação da Cema, rainha das invenções.
E teve festa non-stop. Um que passava, afagava, outro que vinha dar um biscoitinho. Aretha ganhou carinho e presentes o dia todo. Teve até uma cliente que apareceu na loja perguntando se haveria festa.
- "Como você sabe?"
- "Ué, hoje não é aniversário da Aretha? Tenho o ímã do ano passado na minha geladeira!"
Aretha chegou em nossa casa com pouco mais de dois meses e já completou sete anos. E é estranho pensar que usamos o mesmo calendário para marcar datas tão opostas: Aretha chegou exatamente um mês depois de meu pai ter partido, no final de 2004.
Nesses sete anos, Aretha mostrou que pode haver alegria depois da tristeza. E mostrou que a vida é assim, feita de altos e baixos, momentos bons e ruins. Até ela, que nos resgatou de um abismo do qual achávamos que não sairíamos, já passou por isso: dois tumores, duas cirurgias, pós-operatórios de deixar qualquer um de cabelo em pé e a prova de quem nem só os gatos têm sete vidas.
Hoje Aretha é uma jovem senhora e seu rosto começa a ficar branco. Não corre com o mesmo vigor, se cansa bem mais facilmente. Mas ainda é a fiel escudeira de minha mãe e a maior atração do bazar da dona Alice. Aretha segue ensinando que a vida é bem mais simples do que pensamos: com boa comida, água limpinha, um pufe fofo, amigos queridos e muito carinho, não dá para querer muito mais.
Parabéns, Arethinha! E que venham os próximos sete!
| "Hoje vai ser uma festa!" |
| Cema e Camila, responsáveis pelas florzinhas |
| é pique, é pique! |
| Dona Alice e Camila |
| Rosa, cachorreira assumida, ganha um beijoca |
| Seu Luís, a pessoa preferida do universo |
| Dona Lúcia, a quituteira do bairro |
| Todo mundo vira criança para brincar com a Aretha |
| Louro faz-tudo e o porteiro do prédio cantam parabéns |
| Aniella, vizinha e amiga querida, ganha beijo da aniversariante |
| O senhor do prédio de tijolinhos que passa todo dia para ver a Aretha |
| "Hoje vai ter festa?" |
| Marli, que arruma a bagunça que a Aretha faz em casa |
| Eliana, Aretha e BFF (best friend forever) Joy dividem o lanche |
| Aretha e seu melhor amigo |
| Passarinho? Onde? |
| Aretha e o presentinho do seu Luís |
| As moças do salão de beleza posam com a aniversariante |
| Aretha ganha mais um afago |
| E a maior fã da Aretha - notem a folga do cão |
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