Chico Buarque devia ter acabado de conhecer a Aretha, nossa golden retriever, quando rabiscou os primeiros versos de "Cotidiano": "Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã".
Porque é exatamente isso que Aretha faz todos os dias: às seis em ponto ela sobe as escadas até os quartos, abre a porta do quarto de dona Alice e levanta o braço dela com o focinho até minha mãe acordar, dar um afago nela e voltar a dormir.
E com a mesma previsibilidade com que acorda dona Alice todos os dias, Aretha ronda a mesa do café da manhã. Ela nunca faz isso no almoço ou no jantar, porque sabe que comida ela não ganha, não importa quanto insista. Mas com pão e frutas a história é outra: Aretha come misto quente, pão com manteiga, pão com Amendocrem, pão-de-queijo, banana, mamão, melancia. Enquanto todos tomam o café da manhã, ela se reveza entre os membros da família, ganhando um pedacinho daqui, outro de lá. O último pedaço do meu sanduíche é sempre dela (e eu preciso mostrar o prato vazio para ela se convencer de que o sanduíche realmente acabou).
Outro dia, observando Aretha andando de um lado para outro, recebendo seus petisquinhos feliz da vida, dona Alice soltou, entre um gole e outro do café com leite:
"Nosso café da manhã é o happy hour da Aretha."
Era verdade. E ninguém nunca havia descrito isso tão bem.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
tiger woods chinesa
Dona Alice não é virginiana, mas é irritantemente perfeccionista. E competitiva. Não gosta de perder nem em corrida de saco em festa de junina.
Faz mais de dez anos que minha mãe joga golfe. Começou para acompanhar meu pai, com tacos emprestados. Logo pegou gosto pela coisa e viu que jogava bem. Participou de campeonatos, representou seu clube no exterior e ganhou inúmeros troféus, que exibe orgulhosa sobre o piano.
Depois que meu pai faleceu, dona Alice quis parar. Tinha medo de dirigir até o clube, em São Bernardo do Campo. Além disso, todos do seu círculo de amigos eram casais - quem seria seu parceiro nos jogos? Todo mês ensaiava cancelar seu título, mas a paixão pelo esporte falava mais alto. Resolveu mantê-lo e hoje cuida de seus tacos como se fossem de cristal.
Só que para dona Alice não vale apenas jogar. O ditado "O importante é competir" não diz absolutamente nada para ela. Importante mesmo é ganhar. Mas sem tempo para praticar, estava fazendo feio aos domingos, quando joga para valer com os amigos.
Foi na expansão do Campo Belo que dona Alice encontrou a solução para o problema.
O Campo Belo é hoje um bairro em crescimento. Grandes incorporadoras invadiram a região, compraram as casinhas que estavam aqui há décadas e todo fim de semana há um lançamento novo. E junto com os modelos decorados são também construídos gramados, mantidos até o início das obras. Gramados imensos, com alguns desníveis estratégicos, verdejantes, bem cuidados.
Dona Alice não teve dúvida: escolheu o empreendimento com gramado mais bonito e lá foi pelas ruas do bairro, com viseira e luva, carregando o case cheio de tacos e uma sacola cheia de bolinhas de papel, para treinar seu swing.
Os vigias dos terrenos no início achavam curioso - quem era aquela senhora de olhos puxados, que vinha cedinho, com uma infinidade de tacos, conseguia bater 200 bolinhas de papel em pouco mais de uma hora e depois saía pelo gramado recolhendo todas elas? Depois passaram a achar divertido. Alguns até começaram a deixar o lugar mais limpinho no dia anterior para que minha mãe pudesse praticar. Minha mãe, grata, dava gorjetas gordinhas.
Dona Alice já mudou algumas vezes de campo no bairro. As obras começam e ela é obrigada a encontrar outro gramado para treinar suas tacadas. Achou um que agora chama de "meu campo": uma área verde, de esquina, numa subida, cercada por um muro baixinho. O dono do terreno se recusou a vendê-lo à incorporadora, que levantou o prédio mesmo assim. Agora dificilmente conseguirá se desfazer dele.
Nesse campo, dona Alice pratica com bolinhas de verdade. Quando erra a tacada, a bolinha bate na árvore, perde velocidade, passa por cima do muro e sai pingando pela rua, para completa confusão dos passantes, que não entendem de onde elas vêm. Algumas pessoas, achando que as bolinhas não têm dono, guardam-nas no bolso, só para encontrar dona Alice lá na frente, toda equipada, a Tiger Woods chinesa. Todos se prontificam a devolver as bolinhas, mas minha mãe deixa que levem - uma pequena cortesia por usar o gramado alheio.
Os treinos têm dado resultado. Já faz algum tempo que dona Alice volta para casa feliz de seus jogos aos fins de semana. Entra em casa e vai direto para o tanque, limpar seus equipamentos. No dia seguinte, se estiver sol, pega tudo de novo e vai treinar algumas tacadas em seu campo.
Faz mais de dez anos que minha mãe joga golfe. Começou para acompanhar meu pai, com tacos emprestados. Logo pegou gosto pela coisa e viu que jogava bem. Participou de campeonatos, representou seu clube no exterior e ganhou inúmeros troféus, que exibe orgulhosa sobre o piano.
Depois que meu pai faleceu, dona Alice quis parar. Tinha medo de dirigir até o clube, em São Bernardo do Campo. Além disso, todos do seu círculo de amigos eram casais - quem seria seu parceiro nos jogos? Todo mês ensaiava cancelar seu título, mas a paixão pelo esporte falava mais alto. Resolveu mantê-lo e hoje cuida de seus tacos como se fossem de cristal.
Só que para dona Alice não vale apenas jogar. O ditado "O importante é competir" não diz absolutamente nada para ela. Importante mesmo é ganhar. Mas sem tempo para praticar, estava fazendo feio aos domingos, quando joga para valer com os amigos.
Foi na expansão do Campo Belo que dona Alice encontrou a solução para o problema.
O Campo Belo é hoje um bairro em crescimento. Grandes incorporadoras invadiram a região, compraram as casinhas que estavam aqui há décadas e todo fim de semana há um lançamento novo. E junto com os modelos decorados são também construídos gramados, mantidos até o início das obras. Gramados imensos, com alguns desníveis estratégicos, verdejantes, bem cuidados.
Dona Alice não teve dúvida: escolheu o empreendimento com gramado mais bonito e lá foi pelas ruas do bairro, com viseira e luva, carregando o case cheio de tacos e uma sacola cheia de bolinhas de papel, para treinar seu swing.
Os vigias dos terrenos no início achavam curioso - quem era aquela senhora de olhos puxados, que vinha cedinho, com uma infinidade de tacos, conseguia bater 200 bolinhas de papel em pouco mais de uma hora e depois saía pelo gramado recolhendo todas elas? Depois passaram a achar divertido. Alguns até começaram a deixar o lugar mais limpinho no dia anterior para que minha mãe pudesse praticar. Minha mãe, grata, dava gorjetas gordinhas.
Dona Alice já mudou algumas vezes de campo no bairro. As obras começam e ela é obrigada a encontrar outro gramado para treinar suas tacadas. Achou um que agora chama de "meu campo": uma área verde, de esquina, numa subida, cercada por um muro baixinho. O dono do terreno se recusou a vendê-lo à incorporadora, que levantou o prédio mesmo assim. Agora dificilmente conseguirá se desfazer dele.
Nesse campo, dona Alice pratica com bolinhas de verdade. Quando erra a tacada, a bolinha bate na árvore, perde velocidade, passa por cima do muro e sai pingando pela rua, para completa confusão dos passantes, que não entendem de onde elas vêm. Algumas pessoas, achando que as bolinhas não têm dono, guardam-nas no bolso, só para encontrar dona Alice lá na frente, toda equipada, a Tiger Woods chinesa. Todos se prontificam a devolver as bolinhas, mas minha mãe deixa que levem - uma pequena cortesia por usar o gramado alheio.
Os treinos têm dado resultado. Já faz algum tempo que dona Alice volta para casa feliz de seus jogos aos fins de semana. Entra em casa e vai direto para o tanque, limpar seus equipamentos. No dia seguinte, se estiver sol, pega tudo de novo e vai treinar algumas tacadas em seu campo.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
o gordo
Dona Alice não entende de futebol. Se você perguntar a ela quantos cartões amarelos um jogador pode tomar por jogo ou qual a regra do impedimento, ela não vai saber te dizer. Mas ela adora assistir os jogos. Talvez seja o verde do gramado, talvez seja o vai e vém dos jogadores, talvez seja a vibração da torcida, ninguém sabe dizer. Mas de uns tempos para cá, ela deliberadamente procura jogos na TV - não sabe quem está jogando, nem qual campeonato - e assiste, xinga o juiz e torce sempre para quem está ganhando. Para dona Alice, a lealdade pelo time só vale em tempos de Copa.
Ontem a novela das oito acabou mais cedo para a transmissão de Corinthians e Atlético Mineiro pelo Campeonato Brasileiro. Enquanto os jogadores não entravam em campo, o narrador da Globo listava a escalação dos times. Minha mãe escutava, atenta, como se soubesse qual combinação faria um time vitorioso.
Quando ele terminou a escalação do Corinthians, eis que dona Alice solta a pergunta de um milhão de dólares: "Mas e o gordo?"
Quantos jogadores tem num time? Dona Alice não faz ideia. Mas o gordo? O gordo ela sabe quem é.
Ontem a novela das oito acabou mais cedo para a transmissão de Corinthians e Atlético Mineiro pelo Campeonato Brasileiro. Enquanto os jogadores não entravam em campo, o narrador da Globo listava a escalação dos times. Minha mãe escutava, atenta, como se soubesse qual combinação faria um time vitorioso.
Quando ele terminou a escalação do Corinthians, eis que dona Alice solta a pergunta de um milhão de dólares: "Mas e o gordo?"
Quantos jogadores tem num time? Dona Alice não faz ideia. Mas o gordo? O gordo ela sabe quem é.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
celme
Antes de dona Alice havia a dona Celme.
Celme foi uma das pessoas de coração gigante que minha mãe encontrou na época em que vendia roupas de porta em porta. Bonita e dona de um irresistível sotaque mineiro, Celme morava numa casa de esquina no Campo Belo. Em seu quintal se erguia uma jabuticabeira imensa, que ainda hoje continua de pé. Seus dois filhos, Roberto e Silvana, tinham quase a idade de minha mãe. Ninico, seu marido, tinha uma linda cabeleira grisalha, dirigia uma perua escolar e era testemunha de Jeová. Na casa deles viviam três vira-latas simpáticos: Pelé, Pitu e Menina.
Celme era uma das melhores clientes de dona Alice: gentil, generosa e boa pagadora. Durante as compras, com frases curtas, gestos e risadas, foram se aproximando. Até que um dia, apontando para o barrigão que anunciava a chegada iminente do bebê, Celme brincou:
- Quando o bebê nascer você me dá?
Minha mãe riu, disse que sim e continuou tratando de negócios.
Quando eu tinha pouco mais de um mês, dona Alice apareceu na porta de Celme, bebê no colo. Celme tomou um susto. Explicou que estava brincando, que não podia ficar comigo, mas que poderia cuidar de mim se minha mãe quisesse.
E foi assim que ganhei minha primeira e única babá. No primeiro ano, minha mãe ia trabalhar e voltava a cada três horas para amamentar. Quando passei a tomar mamadeira, o já esporádico convívio com meus pais ficou ainda mais raro: eles me deixavam na casa de Celme ainda cedo, enquanto eu ainda estava dormindo; iam me buscar tarde da noite, quando eu já estava dormindo. Eu quase nunca os via.
Com Celme, tive uma educação completamente brasileira: falava só em português, aprendi a comer de garfo, adorava groselha e tinha medo da Cuca, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Celme foi minha primeira referência materna e foi ela a quem eu, por anos, chamei de mãe. Dona Alice era "Mamãe Alice" (fato que ela mesma conta, não sem um quê de tristeza).
Quando completei quatro anos, minha mãe finalmente conseguiu comprar a casa que se tornaria o bazar. Agora ela poderia cuidar dos filhos como gostaria (a essa altura meu irmão já tinha dois anos) e passaria mais tempo com eles, sem a ajuda de uma babá.
A transição, no entanto, foi difícil. Eu estranhava a casa nova, não entendia chinês e sofria com a severidade de meu pai. Na volta da escola, seu Roberto fazia o caminho mais longo para que eu não visse a casa de Celme. Frustrados, meus pais se desesperavam por não conseguir explicar a situação à filha que parecia nunca parar de chorar.
Celme também sentia nossa falta. Telefonava sempre, queria saber como estavam as coisas. Ninico passava aos sábados, depois das reuniões no Salão do Reino, para matar as saudades. Quando ele ia embora, eu torcia para que me levasse junto.
Com o tempo, os adultos perceberam que a separação não era boa para ninguém. E, como num acordo que dispensava palavras, as duas famílias se uniram, as crianças (a essa altura, minha irmã já havia nascido) o elo entre pessoas tão diferentes. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Celme adotou a família chinesa. Cozinheira de mão cheia, os almoços de domingo em sua casa foram por muito tempo uma tradição, com direito a corrida de F-1, macarronada e frango assado e soneca na rede após a comilança. É uma das minhas memórias mais vívidas de infância.
Não sei quando deixei de chamar Celme de mãe e Ninico de pai, mas a nomenclatura não mudou o sentimento. Com eles dividi grandes momentos: aniversários, Dias das Mães, Dias dos Pais, Natais, formaturas.
Mas o tempo passou e a vida foi acontecendo: eu e meus irmãos fomos explorar o mundo, meus pais fizeram outros amigos na comunidade chinesa que crescia em São Paulo e os encontros ficaram menos frequentes.
Ninico faleceu em 2003, um ano antes de meu pai. Celme hoje tem quase 80 anos, mora num prédio baixinho em Moema, mas não sai tanto quanto antigamente. Diz que não tem mais tanta energia. Seu coração, no entanto, continua grande. Mesmo com a saúde um pouco frágil, atravessava a cidade para visitar tia Delta, sua irmã mais nova, que faleceu há duas semanas de câncer. E ela nunca, nunca esquece de nossos aniversários.
Celme foi uma das pessoas de coração gigante que minha mãe encontrou na época em que vendia roupas de porta em porta. Bonita e dona de um irresistível sotaque mineiro, Celme morava numa casa de esquina no Campo Belo. Em seu quintal se erguia uma jabuticabeira imensa, que ainda hoje continua de pé. Seus dois filhos, Roberto e Silvana, tinham quase a idade de minha mãe. Ninico, seu marido, tinha uma linda cabeleira grisalha, dirigia uma perua escolar e era testemunha de Jeová. Na casa deles viviam três vira-latas simpáticos: Pelé, Pitu e Menina.
Celme era uma das melhores clientes de dona Alice: gentil, generosa e boa pagadora. Durante as compras, com frases curtas, gestos e risadas, foram se aproximando. Até que um dia, apontando para o barrigão que anunciava a chegada iminente do bebê, Celme brincou:
- Quando o bebê nascer você me dá?
Minha mãe riu, disse que sim e continuou tratando de negócios.
Quando eu tinha pouco mais de um mês, dona Alice apareceu na porta de Celme, bebê no colo. Celme tomou um susto. Explicou que estava brincando, que não podia ficar comigo, mas que poderia cuidar de mim se minha mãe quisesse.
E foi assim que ganhei minha primeira e única babá. No primeiro ano, minha mãe ia trabalhar e voltava a cada três horas para amamentar. Quando passei a tomar mamadeira, o já esporádico convívio com meus pais ficou ainda mais raro: eles me deixavam na casa de Celme ainda cedo, enquanto eu ainda estava dormindo; iam me buscar tarde da noite, quando eu já estava dormindo. Eu quase nunca os via.
Com Celme, tive uma educação completamente brasileira: falava só em português, aprendi a comer de garfo, adorava groselha e tinha medo da Cuca, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Celme foi minha primeira referência materna e foi ela a quem eu, por anos, chamei de mãe. Dona Alice era "Mamãe Alice" (fato que ela mesma conta, não sem um quê de tristeza).
Quando completei quatro anos, minha mãe finalmente conseguiu comprar a casa que se tornaria o bazar. Agora ela poderia cuidar dos filhos como gostaria (a essa altura meu irmão já tinha dois anos) e passaria mais tempo com eles, sem a ajuda de uma babá.
A transição, no entanto, foi difícil. Eu estranhava a casa nova, não entendia chinês e sofria com a severidade de meu pai. Na volta da escola, seu Roberto fazia o caminho mais longo para que eu não visse a casa de Celme. Frustrados, meus pais se desesperavam por não conseguir explicar a situação à filha que parecia nunca parar de chorar.
Celme também sentia nossa falta. Telefonava sempre, queria saber como estavam as coisas. Ninico passava aos sábados, depois das reuniões no Salão do Reino, para matar as saudades. Quando ele ia embora, eu torcia para que me levasse junto.
Com o tempo, os adultos perceberam que a separação não era boa para ninguém. E, como num acordo que dispensava palavras, as duas famílias se uniram, as crianças (a essa altura, minha irmã já havia nascido) o elo entre pessoas tão diferentes. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Celme adotou a família chinesa. Cozinheira de mão cheia, os almoços de domingo em sua casa foram por muito tempo uma tradição, com direito a corrida de F-1, macarronada e frango assado e soneca na rede após a comilança. É uma das minhas memórias mais vívidas de infância.
Não sei quando deixei de chamar Celme de mãe e Ninico de pai, mas a nomenclatura não mudou o sentimento. Com eles dividi grandes momentos: aniversários, Dias das Mães, Dias dos Pais, Natais, formaturas.
Mas o tempo passou e a vida foi acontecendo: eu e meus irmãos fomos explorar o mundo, meus pais fizeram outros amigos na comunidade chinesa que crescia em São Paulo e os encontros ficaram menos frequentes.
Ninico faleceu em 2003, um ano antes de meu pai. Celme hoje tem quase 80 anos, mora num prédio baixinho em Moema, mas não sai tanto quanto antigamente. Diz que não tem mais tanta energia. Seu coração, no entanto, continua grande. Mesmo com a saúde um pouco frágil, atravessava a cidade para visitar tia Delta, sua irmã mais nova, que faleceu há duas semanas de câncer. E ela nunca, nunca esquece de nossos aniversários.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
paleta de cores
Da série "Confusões de dona Alice":
Eliana é uma senhora ruiva e elegante que mora no prédio quase na frente do bazar da dona Alice. Ela e sua cadelinha Joy, uma pincher pretinha que desfila modelitos incríveis no inverno, passam todos os dias na loja entre 18h30 e 19h, depois da caminhada de final de tarde. Joy e Aretha dividem biscoitinhos, dona Alice e Eliana trocam as últimas do dia e é hora de ir para casa.
Outro dia, Eliana apareceu vestida com uma blusa verde-escuro, de tom parecido com as usadas no Exército brasileiro. Dona Alice, sempre gentil e dona de várias peças verdes no guarda-roupa, elogiou:
"Puxa, Eliana, você fica muito bem de verde-músculo!"
Verde-músculo. Acho que essa ainda não incluíram na paleta de cores.
Eliana é uma senhora ruiva e elegante que mora no prédio quase na frente do bazar da dona Alice. Ela e sua cadelinha Joy, uma pincher pretinha que desfila modelitos incríveis no inverno, passam todos os dias na loja entre 18h30 e 19h, depois da caminhada de final de tarde. Joy e Aretha dividem biscoitinhos, dona Alice e Eliana trocam as últimas do dia e é hora de ir para casa.
Outro dia, Eliana apareceu vestida com uma blusa verde-escuro, de tom parecido com as usadas no Exército brasileiro. Dona Alice, sempre gentil e dona de várias peças verdes no guarda-roupa, elogiou:
"Puxa, Eliana, você fica muito bem de verde-músculo!"
Verde-músculo. Acho que essa ainda não incluíram na paleta de cores.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
e-mails de dona alice
Dona Alice aprendeu a mexer no computador na época em que me mudei para a África do Sul, em 2007. Como boa aluna, ela anotava em chinês, num caderninho, todas as instruções: como ligar a máquina, como configurar para o software em chinês, como navegar na Internet, como escrever e acessar e-mails, como imprimir.
Depois da Internet, seu maior fascínio com o mundo tecnológico era o e-mail. Embora no começo fosse uma dificuldade catar milho num teclado em português, com as letras e pontuações dispostas sem lógica nenhuma, dona Alice aprendeu rápido. No começo, as mensagens eram curtas:
oi li,
como esta sua vida de jornalista do onu ? do com saudade do balulho de ha; ha.ha. sem voce a casa ficou muito sem graca as vezes meu coracao bem apertado ,mas
todo bem ,a gente vai levando, oba! quase esqeci de conta ,sabe meu malanciais do deserdo,ja esta en dia.desto viagen do natal ,corento para alcancar ,finalmente comsequer.do tao feliz sabia?
temque ir para cozina,porqer juli e luki ja chgou vou fazer jantar.
hu beijo bem grande
mamae de ama muito muito
devi ter bastante errado e sem acendo .mas juli ainta vai me ensinar. bay .
(Nota: "Mananciais no Deserto" é um livro devocional que minha mãe copiou todos os dias por anos, para praticar o português. Teve que parar esse ano por um problema no dedo que a impossibilita de escrever por períodos longos.)
Com o tempo, minha mãe pegou o jeito e passou a relatar dias inteiros em suas mensagens, que passava horas escrevendo. Contava sobre pessoas, lugares e episódios e seus relatos me traziam, pelo menos por alguns minutos, de volta para casa:
li ;
como estar ?receber minha imeil?
trabalhar muito ?mas tabem tem que quidar do saude .vai ua academia fazer ginastica ,tem que comer arroz tabem .as vezes pencei quer que voce come ?
tem um didado ;;quado jovem .usar saude para trogar o dinhiro ..quado velho .nem
dinheiro pode compra saude ,;;;poes em quanto jovem ,ja tem que quitar do propeia
saude .
se tiver yempo ,domigo vai para igreja da wu ma ma ,conhcer nova amiga ;;novo ambiende ,isso e muito bom
hoje e feriado de sao paulo .fui jogar golf ,,sair demanha 5 hora ,jogui 36 buraco ,antei
para calamba ,cancei muito ,mas ,e bom ,pratica um poco ,chegui agora poco ,comi
arroz com sopa de ontem ,estou satis feido ,,ha ha ..
em casa tudo bem ,fu trabalha bastante ,eu ,cuitar da aretha ,loja banco ,e faxina de casa ,poquer ,a maria nao vem mais ,entao ... que vai fazer ,,mas tudo bem ,isso e menos ,gracas da deus ..tenho saude para trabalhar ,nao e ?
amo muito muito voce
um beijo
mamae
Os e-mails de minha mãe ajudavam a matar a saudade, do Brasil e, principalmente, dela. Um pouco como quando éramos pequenos e dona Alice viajava a Taiwan de férias. Esperávamos ansiosamente pelas cartas que ela nos mandava, em papel de seda e com letra caprichada. Aquelas finas folhas de papel faziam a saudade diminuir um pouco.
E como fiz com as cartas, fiz também com as mensagens: guardei, com carinho e cuidado. De todas (e são muitas!), minha preferida é essa, que recebi quando completei 34 anos.
filha,
parabes para voce ,gente que tempo passar ,paracer outro dia voce nasceu,gortinha fofinha ,bonidinha e ch/orona ,cada 3 hora tem que dar leite ,aquera epoca ,eu nao precisava relogio ,pelo choro da nene ja sei qual hora ja,e papai dava banho de voce ,ele premeiro lava pe dele bem limpinho ,depois corocou na banhoro para apoia sua cabecinha ,e grante mao dele segura a bumbum ,assim eu e papai brincava com nossa boneca ,ate fu nasceu ,e muito saudade no tempo boms ,ja um piscadinha passou 34 anos ,filha ,mamae de amo e muito muito .....
ja na hora de ir para loja ,depois eu escrever mais ,bom dia do aniverssario ,muito beijo ,muito feliscidade
mamae amo muito muito voce
Estar de volta é bom, muito bom. Mas sinto falta de receber mensagens da dona Alice.
Depois da Internet, seu maior fascínio com o mundo tecnológico era o e-mail. Embora no começo fosse uma dificuldade catar milho num teclado em português, com as letras e pontuações dispostas sem lógica nenhuma, dona Alice aprendeu rápido. No começo, as mensagens eram curtas:
oi li,
como esta sua vida de jornalista do onu ? do com saudade do balulho de ha; ha.ha. sem voce a casa ficou muito sem graca as vezes meu coracao bem apertado ,mas
todo bem ,a gente vai levando, oba! quase esqeci de conta ,sabe meu malanciais do deserdo,ja esta en dia.desto viagen do natal ,corento para alcancar ,finalmente comsequer.do tao feliz sabia?
temque ir para cozina,porqer juli e luki ja chgou vou fazer jantar.
hu beijo bem grande
mamae de ama muito muito
devi ter bastante errado e sem acendo .mas juli ainta vai me ensinar. bay .
(Nota: "Mananciais no Deserto" é um livro devocional que minha mãe copiou todos os dias por anos, para praticar o português. Teve que parar esse ano por um problema no dedo que a impossibilita de escrever por períodos longos.)
Com o tempo, minha mãe pegou o jeito e passou a relatar dias inteiros em suas mensagens, que passava horas escrevendo. Contava sobre pessoas, lugares e episódios e seus relatos me traziam, pelo menos por alguns minutos, de volta para casa:
li ;
como estar ?receber minha imeil?
trabalhar muito ?mas tabem tem que quidar do saude .vai ua academia fazer ginastica ,tem que comer arroz tabem .as vezes pencei quer que voce come ?
tem um didado ;;quado jovem .usar saude para trogar o dinhiro ..quado velho .nem
dinheiro pode compra saude ,;;;poes em quanto jovem ,ja tem que quitar do propeia
saude .
se tiver yempo ,domigo vai para igreja da wu ma ma ,conhcer nova amiga ;;novo ambiende ,isso e muito bom
hoje e feriado de sao paulo .fui jogar golf ,,sair demanha 5 hora ,jogui 36 buraco ,antei
para calamba ,cancei muito ,mas ,e bom ,pratica um poco ,chegui agora poco ,comi
arroz com sopa de ontem ,estou satis feido ,,ha ha ..
em casa tudo bem ,fu trabalha bastante ,eu ,cuitar da aretha ,loja banco ,e faxina de casa ,poquer ,a maria nao vem mais ,entao ... que vai fazer ,,mas tudo bem ,isso e menos ,gracas da deus ..tenho saude para trabalhar ,nao e ?
amo muito muito voce
um beijo
mamae
Os e-mails de minha mãe ajudavam a matar a saudade, do Brasil e, principalmente, dela. Um pouco como quando éramos pequenos e dona Alice viajava a Taiwan de férias. Esperávamos ansiosamente pelas cartas que ela nos mandava, em papel de seda e com letra caprichada. Aquelas finas folhas de papel faziam a saudade diminuir um pouco.
E como fiz com as cartas, fiz também com as mensagens: guardei, com carinho e cuidado. De todas (e são muitas!), minha preferida é essa, que recebi quando completei 34 anos.
filha,
parabes para voce ,gente que tempo passar ,paracer outro dia voce nasceu,gortinha fofinha ,bonidinha e ch/orona ,cada 3 hora tem que dar leite ,aquera epoca ,eu nao precisava relogio ,pelo choro da nene ja sei qual hora ja,e papai dava banho de voce ,ele premeiro lava pe dele bem limpinho ,depois corocou na banhoro para apoia sua cabecinha ,e grante mao dele segura a bumbum ,assim eu e papai brincava com nossa boneca ,ate fu nasceu ,e muito saudade no tempo boms ,ja um piscadinha passou 34 anos ,filha ,mamae de amo e muito muito .....
ja na hora de ir para loja ,depois eu escrever mais ,bom dia do aniverssario ,muito beijo ,muito feliscidade
mamae amo muito muito voce
Estar de volta é bom, muito bom. Mas sinto falta de receber mensagens da dona Alice.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
bazar do seu roberto
O nome que meu pai adotou quando chegou ao Brasil, em 1968, foi Roberto. Como Alice, ninguém sabe exatamente de onde surgiu Roberto, mas fato é que o nome pegou.
Seu Roberto era um homem bonachão, de riso aberto e que tinha uma extrema facilidade de fazer amigos. Conhecia todo mundo no Campo Belo e podia ser visto nas padarias e botecos do bairro, pagando cafés, cervejas e petiscos para conhecidos que encontrava na rua, fossem eles frentistas, taxistas, empresários ou advogados. Usava calça social com tênis (em dias de muita inspiração, usava meias verdes), carregava para onde fosse uma sacola da marca Tiger e quando chovia, colocava um boné.
Meu pai nunca teve muito tino para negócios. Quando trouxe minha mãe para o Brasil, em 1973, estava atolado em dívidas, contraídas num período de cinco anos. Não era bom com dinheiro. Foi dona Alice quem colocou ordem nas finanças do casal e seria ela quem depois sustentaria a família de cinco com o bazar Liang.
Embora dentro de casa seu Roberto fosse um homem severo, autoritário e de poucas palavras, fora de casa sua persona social o transformava num sujeito afável, ótimo contador de histórias e piadas. Vivia cercado de amigos, era sempre ao redor dele que a roda se formava nos jantares e festas. Era generoso também. Emprestou dinheiro a um sem-número de pessoas. Deu dinheiro a várias outras, que ainda hoje, seis anos depois de sua morte, lembram dele com carinho e gratidão.
No bazar, seu Roberto ajudava mais com entretenimento do que com vendas propriamente. Para ele, a loja era uma grande sala de estar. Agradava os clientes, batia papo em português carregado. Era mestre em elogiar as senhoras, que caíam de amores por ele. Gostava de gente. Atrás do balcão, era uma negação. Não sabia o que havia nas vitrines, seu vocabulário limitado impedia que ele explicasse como funcionavam os produtos. Seus descontos eram generosos, para alegria de clientes e desespero absoluto de minha mãe.
Com o tempo, meu pai assumiu outras funções na dinâmica familiar. E nesse sentido, ele foi um pioneiro: enquanto minha mãe tocava a loja, ele cumpria funções administrativas e domésticas. Era ele quem fazia compras para o bazar e ia ao banco para depositar o faturamento do dia. Era ele quem nos buscava na escola e nos choferava para atividades extra-curriculares. Era ele quem fazia feira e supermercado, quem sabia as marcas de Danone que gostávamos, a quantidade de óleo necessária para passarmos o mês, qual era a época de jabuticabas e mixiricas. Meu pai era o que hoje se chama de "pai moderno", com o detalhe de que na época o conceito de "pai moderno" não existia.
O dia estava lindo, de céu azul sem nuvens, quando seu Roberto faleceu em 2004. Ele escolheu o dia de Finados para ir embora. Partiu em grande estilo, do jeito que teria escolhido se soubesse que iria tão cedo, se tivesse tido tempo para preparar: funeral lotado, cemitério movimentado e cheio de flores, clima de festa. Meu pai era esperto mesmo.
Seu Roberto era um homem bonachão, de riso aberto e que tinha uma extrema facilidade de fazer amigos. Conhecia todo mundo no Campo Belo e podia ser visto nas padarias e botecos do bairro, pagando cafés, cervejas e petiscos para conhecidos que encontrava na rua, fossem eles frentistas, taxistas, empresários ou advogados. Usava calça social com tênis (em dias de muita inspiração, usava meias verdes), carregava para onde fosse uma sacola da marca Tiger e quando chovia, colocava um boné.
Meu pai nunca teve muito tino para negócios. Quando trouxe minha mãe para o Brasil, em 1973, estava atolado em dívidas, contraídas num período de cinco anos. Não era bom com dinheiro. Foi dona Alice quem colocou ordem nas finanças do casal e seria ela quem depois sustentaria a família de cinco com o bazar Liang.
Embora dentro de casa seu Roberto fosse um homem severo, autoritário e de poucas palavras, fora de casa sua persona social o transformava num sujeito afável, ótimo contador de histórias e piadas. Vivia cercado de amigos, era sempre ao redor dele que a roda se formava nos jantares e festas. Era generoso também. Emprestou dinheiro a um sem-número de pessoas. Deu dinheiro a várias outras, que ainda hoje, seis anos depois de sua morte, lembram dele com carinho e gratidão.
No bazar, seu Roberto ajudava mais com entretenimento do que com vendas propriamente. Para ele, a loja era uma grande sala de estar. Agradava os clientes, batia papo em português carregado. Era mestre em elogiar as senhoras, que caíam de amores por ele. Gostava de gente. Atrás do balcão, era uma negação. Não sabia o que havia nas vitrines, seu vocabulário limitado impedia que ele explicasse como funcionavam os produtos. Seus descontos eram generosos, para alegria de clientes e desespero absoluto de minha mãe.
Com o tempo, meu pai assumiu outras funções na dinâmica familiar. E nesse sentido, ele foi um pioneiro: enquanto minha mãe tocava a loja, ele cumpria funções administrativas e domésticas. Era ele quem fazia compras para o bazar e ia ao banco para depositar o faturamento do dia. Era ele quem nos buscava na escola e nos choferava para atividades extra-curriculares. Era ele quem fazia feira e supermercado, quem sabia as marcas de Danone que gostávamos, a quantidade de óleo necessária para passarmos o mês, qual era a época de jabuticabas e mixiricas. Meu pai era o que hoje se chama de "pai moderno", com o detalhe de que na época o conceito de "pai moderno" não existia.
O dia estava lindo, de céu azul sem nuvens, quando seu Roberto faleceu em 2004. Ele escolheu o dia de Finados para ir embora. Partiu em grande estilo, do jeito que teria escolhido se soubesse que iria tão cedo, se tivesse tido tempo para preparar: funeral lotado, cemitério movimentado e cheio de flores, clima de festa. Meu pai era esperto mesmo.
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