O Campo Belo vem passando por uma transformação estranha esse último ano. Num período curtíssimo, uma pequena cracolândia se formou ao longo do córrego que deu o nome à antiga avenida Águas Espraiadas, atual Roberto Marinho. Passando pela região é fácil identificar os pequenos conglomerados, roupas nos varais improvisados, gente fumando crack. Não é raro ver motoristas parados no trânsito se assustarem com uma pessoa que, de repente, sai de dentro do córrego.
O resultado são mendigos dormindo em calçadas e garagens, pedintes nas entradas de supermercados e padarias, usuários de drogas se aventurando perigosamente por avenidas cheias de carros, num torpor inconfundível.
Vários moradores dessa nova comunidade que se estabeleceu no Campo Belo passam na frente do bazar diariamente. A maioria são homens feitos, que andam pelo bairro desocupados, pedindo comida, água, sacolas plásticas e trocados, num tom que fica entre o pedido e a ameaça.
Dona Alice morre de medo dessas situações, não apenas por ela, mas por todos na loja. Com ela e as balconistas são três mulheres tomando conta do bazar. A clientela é essencialmente formada por velhinhas, jovens mães e crianças pequenas. Até o cachorro é fêmea. Dona Alice tem experiência de sobra para justificar o excesso de zelo - nunca se sabe do que esses sujeitos são capazes.
Outro dia, um grupo de rapazes visivelmente sob efeito de drogas parou na frente da loja pedindo água. Minha mãe, já saindo de detrás do balcão, disse que não tinha. Os garotos insistiram. Dona Alice não se mexeu. Contrariados, passaram a xingá-la e a ameaçá-la com palavras impublicáveis.
Sozinha na loja, dona Alice não teve dúvidas: pegou a raquete amarela de matar pernilongos, daquelas encontradas por R$ 15 em qualquer cruzamento de São Paulo, e correu até a entrada.
- "Olha, é melhor vocês irem embora porque eu estou armada", disse, mostrando a raquete em punho. "E essa raquete TEM LUZ!"
Os marmanjos se entreolharam e, sem saber como reagir diante da chinesa que pretendia defender sua loja com uma raquete, saíram xingando. Depois que viraram a esquina, dona Alice se acomodou novamente no seu banquinho e voltou a ler seu jornal - mas deixou sua arma pertinho, só para prevenir.
terça-feira, 12 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
bênção
Meu pai foi o primeiro e único namorado de minha mãe. Ela o conheceu quando tinha 18 anos e, depois de cinco anos separados, enquanto meu pai tentava a vida do outro lado do mundo, deu um ultimato ao rapaz: ou ele voltava para Taiwan, eles se casavam e iam juntos para o Brasil ou eles se separavam e cada um ia para seu lado.
Meu pai, que nunca foi bobo, largou tudo e voltou para Taiwan para casar com minha mãe. Vieram juntos para o Brasil em 1973 e fizeram daqui sua casa.
Depois de 31 anos casados e uma vida inteira juntos, meu pai faleceu em novembro de 2004. De repente, dona Alice se viu sozinha, num país que não era o seu, sem família por perto. Ela, que nunca tinha tido medo de nada, de repente se viu com medo de tudo: do escuro, do silêncio, do presente, do futuro e, principalmente, da solidão.
Dona Alice tinha apenas 54 anos quando ficou viúva. Jovem e bonita, ela tinha tudo para voltar ao circuito. Nós mesmos nos perguntávamos se, passados alguns anos, minha mãe não deveria arrumar um namorado - não alguém que substituísse meu pai, mas alguém para dividir a vida com ela.
Minha mãe nem cogitava o assunto. Na cultura chinesa, quando a mulher se casa, ela passa a pertencer à família do marido. Não é só uma questão de sobrenome, mas de prioridades e funções. Dona Alice era casada com o filho mais velho dos meus avós, com uma função muito clara na hierarquia familiar. Suas responsabilidades como nora e cunhada mais velha continuariam, mesmo que meu pai não estivesse mais aqui. Era o que se esperava dela, era o que ela entendia ser seu papel. Para dona Alice, se envolver com outra pessoa seria uma traição. Quase como pedir para trocar de pai e mãe.
Um dia, não muito depois do falecimento de meu pai, minha avó chamou minha mãe num canto. Minha avó, que havia segurado bravamente as lágrimas ao ver meu pai debilitado na cama do hospital. Minha avó, que só foi comunicada da morte de seu filho uma semana depois do enterro, porque temiam que ela não resistisse à notícia. Minha avó, que tinha verdadeira adoração pelo seu primogênito. Essa avó sentou com minha mãe e disse baixinho, com sua sabedoria anciã:
- "Você ainda é jovem, vai viver muito tempo. A vida sozinha é muito triste. É importante ter alguém para dividir o futuro, para fazer companhia. Se você quiser casar de novo, pode se casar. Não importa o que digam. Você pode casar."
Dona Alice apertou as mãos enrugadas de minha avó entre as suas e abriu um sorriso de gratidão. Não porque tivesse considerado a possibilidade ou porque quisesse se casar de novo, mas pela generosidade de minha avó. Naquela tarde, só elas duas em casa, minha avó deixou claro que a felicidade de minha mãe era mais importante que os protocolos. E saber disso era um alívio.
Meu pai, que nunca foi bobo, largou tudo e voltou para Taiwan para casar com minha mãe. Vieram juntos para o Brasil em 1973 e fizeram daqui sua casa.
Depois de 31 anos casados e uma vida inteira juntos, meu pai faleceu em novembro de 2004. De repente, dona Alice se viu sozinha, num país que não era o seu, sem família por perto. Ela, que nunca tinha tido medo de nada, de repente se viu com medo de tudo: do escuro, do silêncio, do presente, do futuro e, principalmente, da solidão.
Dona Alice tinha apenas 54 anos quando ficou viúva. Jovem e bonita, ela tinha tudo para voltar ao circuito. Nós mesmos nos perguntávamos se, passados alguns anos, minha mãe não deveria arrumar um namorado - não alguém que substituísse meu pai, mas alguém para dividir a vida com ela.
Minha mãe nem cogitava o assunto. Na cultura chinesa, quando a mulher se casa, ela passa a pertencer à família do marido. Não é só uma questão de sobrenome, mas de prioridades e funções. Dona Alice era casada com o filho mais velho dos meus avós, com uma função muito clara na hierarquia familiar. Suas responsabilidades como nora e cunhada mais velha continuariam, mesmo que meu pai não estivesse mais aqui. Era o que se esperava dela, era o que ela entendia ser seu papel. Para dona Alice, se envolver com outra pessoa seria uma traição. Quase como pedir para trocar de pai e mãe.
Um dia, não muito depois do falecimento de meu pai, minha avó chamou minha mãe num canto. Minha avó, que havia segurado bravamente as lágrimas ao ver meu pai debilitado na cama do hospital. Minha avó, que só foi comunicada da morte de seu filho uma semana depois do enterro, porque temiam que ela não resistisse à notícia. Minha avó, que tinha verdadeira adoração pelo seu primogênito. Essa avó sentou com minha mãe e disse baixinho, com sua sabedoria anciã:
- "Você ainda é jovem, vai viver muito tempo. A vida sozinha é muito triste. É importante ter alguém para dividir o futuro, para fazer companhia. Se você quiser casar de novo, pode se casar. Não importa o que digam. Você pode casar."
Dona Alice apertou as mãos enrugadas de minha avó entre as suas e abriu um sorriso de gratidão. Não porque tivesse considerado a possibilidade ou porque quisesse se casar de novo, mas pela generosidade de minha avó. Naquela tarde, só elas duas em casa, minha avó deixou claro que a felicidade de minha mãe era mais importante que os protocolos. E saber disso era um alívio.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
realocação de recursos
Dona Alice adora crianças. Mais velha de sete irmãos, ela cresceu cercada pela criançada. Quando conheceu meu pai, ganhou de brinde os nove irmãos dele, dos quais oito eram mais novos que ela. Com o tempo, os sobrinhos foram chegando. São 25 ao todo. Minha mãe carregou todos no colo, brincou com todos eles, enchia de presentes e sabe o nome de cada um sem hesitar, apesar de hoje serem todos marmanjos.
No bazar, dona Alice é hit absoluto com a criançada. Ganha beijos, abraços e até bolos de presente dos pequenos. E quando algum cliente anuncia o nascimento de um filho ou neto, minha mãe faz aquela festa, porque para ela não há maior motivo de comemoração do que a chegada de uma criança. Depois, sai discretamente, escolhe algum brinquedo da vitrine, embrulha escondido e coloca na sacola com as outras compras. Na hora que o cliente se despede, dona Alice conta no ouvido: "Deixei uma lembrancinha para seu filho/neto na sacola. Parabéns!" Difícil encontrar algum bebê no Campo Belo que não tenha um presente de dona Alice no baú de brinquedos.
Com essa adoração por crianças, é fácil entender por que minha mãe não se conforma quando alguém diz que não quer ter filhos. Para ela, são os filhos que dão razão à existência. É por eles que se trabalha, é por eles que se aguentam os percalços da vida, é por eles que se acorda todos os dias.
Um dia, uma amiga minha veio ao bazar para uma visita. Casada, 40 e poucos anos, nunca quis ter filhos. Adora os sobrinhos e os enteados, mas nunca quis ter os seus. Seu principal argumento era a conta bancária.
- "Mas dona Alice, é tão caro ter filhos hoje em dia. A criança mal nasce e já tem que ir para a creche. Depois vêm escola, inglês, natação, babá, viagens, festinhas... São muitos gastos!"
Minha mãe, com a lucidez e a paciência que lhe são tão peculiares, explicou por que aquela não era uma desculpa razoável.
- "Olha, eu tive três filhos. Eu e meu marido trabalhávamos muito para sustentar os três. Todos eles estudaram em escola particular, fizeram aulas de piano, natação, tênis, inglês e kumon. Os três usaram aparelho nos dentes e fizeram intercâmbio no exterior."
Minha amiga acenou com a cabeça, como se já tivesse feito os cálculos mentalmente.
- "Mas quando as crianças cresceram, não ficamos mais ricos. As despesas eram bem menores, mas mesmo assim não sobrava muito no final do mês. Para onde foi aquele dinheiro?"
A essa altura, outras pessoas na loja já haviam parado para ouvir a explicação.
- "Deus realocou para outra família, que está criando filhos pequenos e precisa do dinheiro mais que a gente. Eu não preciso mais, meus filhos estão crescidos, então Deus dá para outra família."
E com isso, dona Alice concluiu seu caso.
Minha amiga pode até não querer filhos. Mas para convencer dona Alice, vai ter que arranjar outra desculpa.
No bazar, dona Alice é hit absoluto com a criançada. Ganha beijos, abraços e até bolos de presente dos pequenos. E quando algum cliente anuncia o nascimento de um filho ou neto, minha mãe faz aquela festa, porque para ela não há maior motivo de comemoração do que a chegada de uma criança. Depois, sai discretamente, escolhe algum brinquedo da vitrine, embrulha escondido e coloca na sacola com as outras compras. Na hora que o cliente se despede, dona Alice conta no ouvido: "Deixei uma lembrancinha para seu filho/neto na sacola. Parabéns!" Difícil encontrar algum bebê no Campo Belo que não tenha um presente de dona Alice no baú de brinquedos.
Com essa adoração por crianças, é fácil entender por que minha mãe não se conforma quando alguém diz que não quer ter filhos. Para ela, são os filhos que dão razão à existência. É por eles que se trabalha, é por eles que se aguentam os percalços da vida, é por eles que se acorda todos os dias.
Um dia, uma amiga minha veio ao bazar para uma visita. Casada, 40 e poucos anos, nunca quis ter filhos. Adora os sobrinhos e os enteados, mas nunca quis ter os seus. Seu principal argumento era a conta bancária.
- "Mas dona Alice, é tão caro ter filhos hoje em dia. A criança mal nasce e já tem que ir para a creche. Depois vêm escola, inglês, natação, babá, viagens, festinhas... São muitos gastos!"
Minha mãe, com a lucidez e a paciência que lhe são tão peculiares, explicou por que aquela não era uma desculpa razoável.
- "Olha, eu tive três filhos. Eu e meu marido trabalhávamos muito para sustentar os três. Todos eles estudaram em escola particular, fizeram aulas de piano, natação, tênis, inglês e kumon. Os três usaram aparelho nos dentes e fizeram intercâmbio no exterior."
Minha amiga acenou com a cabeça, como se já tivesse feito os cálculos mentalmente.
- "Mas quando as crianças cresceram, não ficamos mais ricos. As despesas eram bem menores, mas mesmo assim não sobrava muito no final do mês. Para onde foi aquele dinheiro?"
A essa altura, outras pessoas na loja já haviam parado para ouvir a explicação.
- "Deus realocou para outra família, que está criando filhos pequenos e precisa do dinheiro mais que a gente. Eu não preciso mais, meus filhos estão crescidos, então Deus dá para outra família."
E com isso, dona Alice concluiu seu caso.
Minha amiga pode até não querer filhos. Mas para convencer dona Alice, vai ter que arranjar outra desculpa.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
muito prazer, chapeuzinho
No começo de janeiro levei minha mãe a Buenos Aires. A cidade estava lotada, os dias estava lindos, a comida era boa e o câmbio estava 1 para 2. No city tour que fizemos pela cidade, dona Alice sentou na janela e ia conferindo, no meu mapa, todos os lugares que a guia mencionava.
- Aqui, a Plaza de Mayo. À nossa frente, o Obelisco.
Minha mãe observava atenta. Quando os faróis fechavam, ela aproveitava para tirar fotos de prédios, monumentos, igrejas e de placas com os nomes de ruas (Dona Alice gosta de dar a exata localização das coisas quando mostra as fotos a amigas).
- Lá ao longe, as torres da Catedral Ortodoxa Russa. Aqui, do seu lado direito, o estádio do Boca Juniors.
O passeio que durava uma manhã terminava num shopping center no bairro chique de Palermo. No caminho até lá, passamos pelo parque Três de Febrero, no meio do qual se erguia uma estátua em mármore da Chapeuzinho Vermelho, completa com a Vovozinha e o Lobo.
- À sua esquerda, a Chapeuzinho Vermelho. Vejam o lobo escondido atrás dela - indicou a guia.
Minha mãe procurou, procurou e não achou o tal chapéu vermelho de que a guia falava. E lobo? Mas tem um lobo aqui no parque?
E eu, sem entender a confusão de minha mãe e achando que seus óculos estavam fracos, apontava para a estátua:
- Mãe, olha lá, a Chapeuzinho Vermelho. Tá vendo? Ao lado dela está a vovó. E atrás da Chapeuzinho está o Lobo escondido.
Dona Alice apertava os olhos e continuava sem achar.
Foi só então que me ocorreu:
- Mãe, você sabe quem é Chapeuzinho Vermelho?
- Não. Quem é?
Aí me dei conta: já passei horas incontáveis explicando para dona Alice a epidemia da Aids na África, a guerra por diamantes em Serra Leoa, os prós e contras do Bolsa Família, mas nunca tinha me dado ao trabalho de checar se ela conhecia as histórias da carochinha.
Contei a ela rapidamente a história de Chapeuzinho, enquanto o tour chegava ao último destino. Dona Alice ficou absolutamente horrorizada com o fato de o Lobo ter devorado a vovozinha.
Durante o almoço, na praça de alimentação lotada, perguntei:
- E a história dos Três Porquinhos, mãe, você conhece?
- Três porquinhos? Não, conheço só os três macaquinhos, que um é mudo, o outro é surdo e o outro é cego.
Dei risada e comecei:
- Então, era uma vez três porquinhos...
E foi assim que numa tarde ensolarada em Buenos Aires, e com algum atraso, dona Alice foi apresentada aos personagens de minha infância.
- Aqui, a Plaza de Mayo. À nossa frente, o Obelisco.
Minha mãe observava atenta. Quando os faróis fechavam, ela aproveitava para tirar fotos de prédios, monumentos, igrejas e de placas com os nomes de ruas (Dona Alice gosta de dar a exata localização das coisas quando mostra as fotos a amigas).
- Lá ao longe, as torres da Catedral Ortodoxa Russa. Aqui, do seu lado direito, o estádio do Boca Juniors.
O passeio que durava uma manhã terminava num shopping center no bairro chique de Palermo. No caminho até lá, passamos pelo parque Três de Febrero, no meio do qual se erguia uma estátua em mármore da Chapeuzinho Vermelho, completa com a Vovozinha e o Lobo.
- À sua esquerda, a Chapeuzinho Vermelho. Vejam o lobo escondido atrás dela - indicou a guia.
Minha mãe procurou, procurou e não achou o tal chapéu vermelho de que a guia falava. E lobo? Mas tem um lobo aqui no parque?
E eu, sem entender a confusão de minha mãe e achando que seus óculos estavam fracos, apontava para a estátua:
- Mãe, olha lá, a Chapeuzinho Vermelho. Tá vendo? Ao lado dela está a vovó. E atrás da Chapeuzinho está o Lobo escondido.
Dona Alice apertava os olhos e continuava sem achar.
Foi só então que me ocorreu:
- Mãe, você sabe quem é Chapeuzinho Vermelho?
- Não. Quem é?
Aí me dei conta: já passei horas incontáveis explicando para dona Alice a epidemia da Aids na África, a guerra por diamantes em Serra Leoa, os prós e contras do Bolsa Família, mas nunca tinha me dado ao trabalho de checar se ela conhecia as histórias da carochinha.
Contei a ela rapidamente a história de Chapeuzinho, enquanto o tour chegava ao último destino. Dona Alice ficou absolutamente horrorizada com o fato de o Lobo ter devorado a vovozinha.
Durante o almoço, na praça de alimentação lotada, perguntei:
- E a história dos Três Porquinhos, mãe, você conhece?
- Três porquinhos? Não, conheço só os três macaquinhos, que um é mudo, o outro é surdo e o outro é cego.
Dei risada e comecei:
- Então, era uma vez três porquinhos...
E foi assim que numa tarde ensolarada em Buenos Aires, e com algum atraso, dona Alice foi apresentada aos personagens de minha infância.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
o dia em que dona alice fez um marmanjo chorar
Dona Alice adora um agito. Desde que minha irmã começou a expor suas coleções de pantufas numa feira de calçados, minha mãe espera ansiosamente por janeiro, mesmo que ainda não completamente recuperada do cansaço acumulado em dezembro.
Para os expositores, a feira começa dias antes do início oficial do evento. É preciso acompanhar a montagem do estande, arrumar as vitrines, conferir se o ar-condicionado está funcionando. Em meio à feira semi-pronta, dona Alice parece uma criança na Disney. Percorre os corredores com os olhos brilhando e, horas depois, aparece animada com a lista dos estandes mais bonitos, que merecem uma visita.
Quando a feira começa, a diversão só faz aumentar. Minha mãe adora conversar com clientes, representantes e com quem mais passar desavisado pela porta. Todo mundo que entra é convidado a sentar.
- "Toma uma Coca-Cola, está tão calor... E olha, come um pedacinho de bolo."
- "Eu estava só vendo a vitrine, volto mais tar..."
- "Imagina, come um pedacinho de bolo, é uma delícia. É um bolo chinês, você vai até querer mais."
E as pessoas sempre querem. Se encantam com dona Alice, que tem um arsenal infinito de histórias para contar. E com o bolo, lógico, que é sucesso de bilheteria e já virou até tradição. Quando os representantes encontram clientes na feira, convidam: "Vamos lá comer um bolinho na mãe!". Dona Alice virou mãe dos marmanjos.
Essa feira não foi diferente. A agitação, o entra-e-sai de gente, aquela canseira boa no final da tarde. Tudo ia conforme o protocolo, até a tarde do segundo dia, quando a luz acabou em todo o Anhembi. Pega de surpresa, dona Alice foi obrigada a encurtar seu habitual passeio da tarde pela feira. Só não percebeu que, no meio do caminho, seus óculos caíram no chão. Quando chegou ao estande, já era tarde.
Ficou desolada. A armação cor de rosa da Marc Jacobs havia sido um presente nosso. Eram os óculos que ela usava em ocasiões especiais, para combinar com roupas mais bonitas. Inconformada, dona Alice ficou sentada por horas, cabisbaixa, sem enxergar muito bem, sem falar muito, tentando lembrar por onde havia passado.
Ninguém sabia mais o que fazer para melhorar seu ânimo. Valderi, um representante jovem e boa praça, gaúcho de Erechim, já havia passado nos Achados e Perdidos, mas nem sinal dos óculos. Mas incapaz de assistir àquela tristeza de braços cruzados, ele pegou Cema pelo braço e avisou, enquanto caminhava em direção à porta:
- "Dona Alice, a gente vai achar seus óculos!"
Valderi falou com todos os seguranças que encontrou pelo caminho. Conversa daqui, descreve de lá, repete a história para esse outro. De guarda em guarda, em pouco menos de uma hora ele havia chegado ao segurança que havia encontrado os óculos.
Sem conseguir enxergar, minha mãe nem percebeu quando Valderi, acompanhado do guarda, entrou no estande com os óculos no rosto. Foi só quando minha irmã lhe chamou a atenção que ela pulou da cadeira e o abraçou, depois abraçou o segurança, o sorriso de volta, a alegria incontida, regada a bolo e Coca-Cola.
Comovida, dona Alice passou aquela noite escrevendo uma carta para Valderi, que entregou no dia seguinte, junto com um presente.
Valderi leu a carta, enxugou as lágrimas e disse, com voz engasgada:
- "Dona Alice, a senhora acabou de fazer um homem de cem quilos chorar!"
Com ou sem óculos, dona Alice tem por princípio enxergar sempre o bem nas pessoas. Mas ser surpreendida é sempre bom.
Para os expositores, a feira começa dias antes do início oficial do evento. É preciso acompanhar a montagem do estande, arrumar as vitrines, conferir se o ar-condicionado está funcionando. Em meio à feira semi-pronta, dona Alice parece uma criança na Disney. Percorre os corredores com os olhos brilhando e, horas depois, aparece animada com a lista dos estandes mais bonitos, que merecem uma visita.
Quando a feira começa, a diversão só faz aumentar. Minha mãe adora conversar com clientes, representantes e com quem mais passar desavisado pela porta. Todo mundo que entra é convidado a sentar.
- "Toma uma Coca-Cola, está tão calor... E olha, come um pedacinho de bolo."
- "Eu estava só vendo a vitrine, volto mais tar..."
- "Imagina, come um pedacinho de bolo, é uma delícia. É um bolo chinês, você vai até querer mais."
E as pessoas sempre querem. Se encantam com dona Alice, que tem um arsenal infinito de histórias para contar. E com o bolo, lógico, que é sucesso de bilheteria e já virou até tradição. Quando os representantes encontram clientes na feira, convidam: "Vamos lá comer um bolinho na mãe!". Dona Alice virou mãe dos marmanjos.
Essa feira não foi diferente. A agitação, o entra-e-sai de gente, aquela canseira boa no final da tarde. Tudo ia conforme o protocolo, até a tarde do segundo dia, quando a luz acabou em todo o Anhembi. Pega de surpresa, dona Alice foi obrigada a encurtar seu habitual passeio da tarde pela feira. Só não percebeu que, no meio do caminho, seus óculos caíram no chão. Quando chegou ao estande, já era tarde.
Ficou desolada. A armação cor de rosa da Marc Jacobs havia sido um presente nosso. Eram os óculos que ela usava em ocasiões especiais, para combinar com roupas mais bonitas. Inconformada, dona Alice ficou sentada por horas, cabisbaixa, sem enxergar muito bem, sem falar muito, tentando lembrar por onde havia passado.
Ninguém sabia mais o que fazer para melhorar seu ânimo. Valderi, um representante jovem e boa praça, gaúcho de Erechim, já havia passado nos Achados e Perdidos, mas nem sinal dos óculos. Mas incapaz de assistir àquela tristeza de braços cruzados, ele pegou Cema pelo braço e avisou, enquanto caminhava em direção à porta:
- "Dona Alice, a gente vai achar seus óculos!"
Valderi falou com todos os seguranças que encontrou pelo caminho. Conversa daqui, descreve de lá, repete a história para esse outro. De guarda em guarda, em pouco menos de uma hora ele havia chegado ao segurança que havia encontrado os óculos.
Sem conseguir enxergar, minha mãe nem percebeu quando Valderi, acompanhado do guarda, entrou no estande com os óculos no rosto. Foi só quando minha irmã lhe chamou a atenção que ela pulou da cadeira e o abraçou, depois abraçou o segurança, o sorriso de volta, a alegria incontida, regada a bolo e Coca-Cola.
Comovida, dona Alice passou aquela noite escrevendo uma carta para Valderi, que entregou no dia seguinte, junto com um presente.
Valderi leu a carta, enxugou as lágrimas e disse, com voz engasgada:
- "Dona Alice, a senhora acabou de fazer um homem de cem quilos chorar!"
Com ou sem óculos, dona Alice tem por princípio enxergar sempre o bem nas pessoas. Mas ser surpreendida é sempre bom.
sábado, 29 de janeiro de 2011
confissão
Eu sempre fui a mais difícil dos três filhos de dona Alice: a filha egoísta, temperamental, briguenta, que falava alto, saía batendo portas, cantando pneus e que conseguia passar meses em greve de silêncio. Eu sempre digo que minha mãe devia ser canonizada por não ter me assassinado durante minha adolescência.
Dona Alice nunca se abalou com meus acessos de raiva. Nunca brigou, nunca levantou a voz. Enquanto eu chorava, me descabelava e culpava Deus e todo mundo pelas injustiças que eu acreditava terem sido cometidas contra mim, ela ouvia, paciente.
Em casa, minha mãe era o equilíbrio na dinâmica familiar. Enquanto meu pai, de personalidade severa, metia medo nas crianças, dona Alice fazia o contraponto - do jeito dela, sem alarde, e sem colocar em xeque a autoridade de meu pai.
Ele achava que eu era nova demais para ter as chaves de casa. Minha mãe me deu o molho sem medo quando fiz 15 anos, num gesto de confiança que até hoje me comove. Quando capotei com o carro de seu Roberto por excesso de velocidade, a única coisa que me preocupava diante do estrago era a bronca que ia tomar dele. Dona Alice, que foi me buscar no local do acidente, me apertava, como se não acreditasse que eu estivesse viva, e dizia que não tinha problema, que "carro a gente compra outro". Quando, depois de uma briga com meu pai, saí de casa, minha mãe foi a primeira a mandar para meu novo apartamento o que ela acreditava ser essencial para sobrevivência: um filtro de água e uma panela cheia de comida. Não importava que eu já tivesse quase 30 anos. Não satisfeita, juntou toda a coragem que tinha para escrever uma carta, desaprovando a atitude de meu pai. Depois, surrupiou uma televisão de sua casa para levar para a minha. Meu pai faleceu achando que alguém tivesse entrado durante a noite e roubado o aparelho - uma pequena contravenção em nome do papel de mãe.
Lógico que nem tudo são rosas nesses 36 anos. Dona Alice tem manias que levam qualquer um à loucura. A demora em sair de casa, por exemplo. "Vamos, vamos, estamos atrasados!", ela apressa. Quando estão todos na porta, chave em punho, são mais dez minutos até que ela mesma fique pronta.
E a teimosia? Quando minha mãe coloca algo na cabeça, não há quem a demova da ideia. E não duvide, porque ela vai conseguir o que quer, não importam os obstáculos e não importa quão maluca seja a proposta. Frases mal-colocadas também já deram origem a brigas. No dia em que passei no vestibular para medicina, uma tarde chuvosa em janeiro de 1993, cheguei em casa feliz, com o rosto pintado e anunciando a notícia. Ouvi de dona Alice: "Estou mais feliz hoje do que no dia em que você nasceu!". A frase reduziu minha alegria pela metade e, por anos, me ficou engasgada.
Depois de tantos anos morando sozinha, já faz quase dois anos que voltei a morar com dona Alice. O saldo da convivência é bom, embora com alguns períodos de turbulência. Às vezes - e isso me preocupa um pouco - sinto que estou mais mansa, que meu temperamento não é o que já foi um dia. Não brigo tanto quanto antes. Escuto e onde antes implicava, deixo passar. Mesmo a frase que antes tanto me incomodava, hoje me enternece. Entendo que foi a única forma que minha mãe encontrou de expressar o tamanho da alegria e do orgulho que sentia naquele momento. Era como se dissesse: "Não dizem que o nascimento de um bebê é a maior alegria que se pode ter? Pois bem, minha alegria hoje é ainda maior!"
A própria dona Alice tem reparado na mudança da megera domada. Talvez seja a idade. Talvez seja a preguiça. Ou talvez seja, finalmente, a sabedoria de que, no final das contas, dona Alice sempre sabe melhor.
Dona Alice nunca se abalou com meus acessos de raiva. Nunca brigou, nunca levantou a voz. Enquanto eu chorava, me descabelava e culpava Deus e todo mundo pelas injustiças que eu acreditava terem sido cometidas contra mim, ela ouvia, paciente.
Em casa, minha mãe era o equilíbrio na dinâmica familiar. Enquanto meu pai, de personalidade severa, metia medo nas crianças, dona Alice fazia o contraponto - do jeito dela, sem alarde, e sem colocar em xeque a autoridade de meu pai.
Ele achava que eu era nova demais para ter as chaves de casa. Minha mãe me deu o molho sem medo quando fiz 15 anos, num gesto de confiança que até hoje me comove. Quando capotei com o carro de seu Roberto por excesso de velocidade, a única coisa que me preocupava diante do estrago era a bronca que ia tomar dele. Dona Alice, que foi me buscar no local do acidente, me apertava, como se não acreditasse que eu estivesse viva, e dizia que não tinha problema, que "carro a gente compra outro". Quando, depois de uma briga com meu pai, saí de casa, minha mãe foi a primeira a mandar para meu novo apartamento o que ela acreditava ser essencial para sobrevivência: um filtro de água e uma panela cheia de comida. Não importava que eu já tivesse quase 30 anos. Não satisfeita, juntou toda a coragem que tinha para escrever uma carta, desaprovando a atitude de meu pai. Depois, surrupiou uma televisão de sua casa para levar para a minha. Meu pai faleceu achando que alguém tivesse entrado durante a noite e roubado o aparelho - uma pequena contravenção em nome do papel de mãe.
Lógico que nem tudo são rosas nesses 36 anos. Dona Alice tem manias que levam qualquer um à loucura. A demora em sair de casa, por exemplo. "Vamos, vamos, estamos atrasados!", ela apressa. Quando estão todos na porta, chave em punho, são mais dez minutos até que ela mesma fique pronta.
E a teimosia? Quando minha mãe coloca algo na cabeça, não há quem a demova da ideia. E não duvide, porque ela vai conseguir o que quer, não importam os obstáculos e não importa quão maluca seja a proposta. Frases mal-colocadas também já deram origem a brigas. No dia em que passei no vestibular para medicina, uma tarde chuvosa em janeiro de 1993, cheguei em casa feliz, com o rosto pintado e anunciando a notícia. Ouvi de dona Alice: "Estou mais feliz hoje do que no dia em que você nasceu!". A frase reduziu minha alegria pela metade e, por anos, me ficou engasgada.
Depois de tantos anos morando sozinha, já faz quase dois anos que voltei a morar com dona Alice. O saldo da convivência é bom, embora com alguns períodos de turbulência. Às vezes - e isso me preocupa um pouco - sinto que estou mais mansa, que meu temperamento não é o que já foi um dia. Não brigo tanto quanto antes. Escuto e onde antes implicava, deixo passar. Mesmo a frase que antes tanto me incomodava, hoje me enternece. Entendo que foi a única forma que minha mãe encontrou de expressar o tamanho da alegria e do orgulho que sentia naquele momento. Era como se dissesse: "Não dizem que o nascimento de um bebê é a maior alegria que se pode ter? Pois bem, minha alegria hoje é ainda maior!"
A própria dona Alice tem reparado na mudança da megera domada. Talvez seja a idade. Talvez seja a preguiça. Ou talvez seja, finalmente, a sabedoria de que, no final das contas, dona Alice sempre sabe melhor.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
tardes musicais
Eu, por boa parte da minha infância e adolescência, rejeitei tudo que se relacionasse à cultura chinesa. No início, provavelmente por ser uma cultura completamente alheia à criação que recebera de minha babá brasileira. Depois, como uma forma de me encaixar na escola alemã em que estudava. E mais tarde, como uma maneira de protesto por ser obrigada a frequentar aulas de chinês aos domingos.
O que eu não sabia é que, mesmo sem querer, essa cultura que eu tanto recusava seria pano de fundo para muitas de minhas memórias. Lembro-me perfeitamente das tardes de domingo, em que meus pais e alguns amigos, imigrantes como eles, se reuniam na loja (onde era mais fresco), depois dos longos almoços, e passavam horas contando histórias e cantando músicas chinesas que eu não entendia, acompanhando a fita que tocava no gravador.
Esses dias, ouvi numa festa de aniversário uma das músicas que escutávamos naquelas tardes musicais. Descobri que a cantora era Teresa Teng, umas das maiores cantoras de Taiwan, dona de hits românticos conhecidos em toda a Ásia. Eram músicas de que meu pai gostava muito e que minha mãe até hoje canta com voz afinadíssima. Aos primeiros acordes de "Tian Mi Mi", uma das preferidas de seu Roberto, percebi, com surpresa e nostalgia, que sou muito mais chinesa do que pensava (ou gostaria de admitir).
O que eu não sabia é que, mesmo sem querer, essa cultura que eu tanto recusava seria pano de fundo para muitas de minhas memórias. Lembro-me perfeitamente das tardes de domingo, em que meus pais e alguns amigos, imigrantes como eles, se reuniam na loja (onde era mais fresco), depois dos longos almoços, e passavam horas contando histórias e cantando músicas chinesas que eu não entendia, acompanhando a fita que tocava no gravador.
Esses dias, ouvi numa festa de aniversário uma das músicas que escutávamos naquelas tardes musicais. Descobri que a cantora era Teresa Teng, umas das maiores cantoras de Taiwan, dona de hits românticos conhecidos em toda a Ásia. Eram músicas de que meu pai gostava muito e que minha mãe até hoje canta com voz afinadíssima. Aos primeiros acordes de "Tian Mi Mi", uma das preferidas de seu Roberto, percebi, com surpresa e nostalgia, que sou muito mais chinesa do que pensava (ou gostaria de admitir).
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