quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

o dia em que dona alice fez um marmanjo chorar

Dona Alice adora um agito. Desde que minha irmã começou a expor suas coleções de pantufas numa feira de calçados, minha mãe espera ansiosamente por janeiro, mesmo que ainda não completamente recuperada do cansaço acumulado em dezembro.
Para os expositores, a feira começa dias antes do início oficial do evento. É preciso acompanhar a montagem do estande, arrumar as vitrines, conferir se o ar-condicionado está funcionando. Em meio à feira semi-pronta, dona Alice parece uma criança na Disney. Percorre os corredores com os olhos brilhando e, horas depois, aparece animada com a lista dos estandes mais bonitos, que merecem uma visita.
Quando a feira começa, a diversão só faz aumentar. Minha mãe adora conversar com clientes, representantes e com quem mais passar desavisado pela porta. Todo mundo que entra é convidado a sentar.
- "Toma uma Coca-Cola, está tão calor... E olha, come um pedacinho de bolo."
- "Eu estava só vendo a vitrine, volto mais tar..."
- "Imagina, come um pedacinho de bolo, é uma delícia. É um bolo chinês, você vai até querer mais."
E as pessoas sempre querem. Se encantam com dona Alice, que tem um arsenal infinito de histórias para contar. E com o bolo, lógico, que é sucesso de bilheteria e já virou até tradição. Quando os representantes encontram clientes na feira, convidam: "Vamos lá comer um bolinho na mãe!". Dona Alice virou mãe dos marmanjos.
Essa feira não foi diferente. A agitação, o entra-e-sai de gente, aquela canseira boa no final da tarde. Tudo ia conforme o protocolo, até a tarde do segundo dia, quando a luz acabou em todo o Anhembi. Pega de surpresa, dona Alice foi obrigada a encurtar seu habitual passeio da tarde pela feira. Só não percebeu que, no meio do caminho, seus óculos caíram no chão. Quando chegou ao estande, já era tarde.
Ficou desolada. A armação cor de rosa da Marc Jacobs havia sido um presente nosso. Eram os óculos que ela usava em ocasiões especiais, para combinar com roupas mais bonitas. Inconformada, dona Alice ficou sentada por horas, cabisbaixa, sem enxergar muito bem, sem falar muito, tentando lembrar por onde havia passado.
Ninguém sabia mais o que fazer para melhorar seu ânimo. Valderi, um representante jovem e boa praça, gaúcho de Erechim, já havia passado nos Achados e Perdidos, mas nem sinal dos óculos. Mas incapaz de assistir àquela tristeza de braços cruzados, ele pegou Cema pelo braço e avisou, enquanto caminhava em direção à porta:
- "Dona Alice, a gente vai achar seus óculos!"
Valderi falou com todos os seguranças que encontrou pelo caminho. Conversa daqui, descreve de lá, repete a história para esse outro. De guarda em guarda, em pouco menos de uma hora ele havia chegado ao segurança que havia encontrado os óculos.
Sem conseguir enxergar, minha mãe nem percebeu quando Valderi, acompanhado do guarda, entrou no estande com os óculos no rosto. Foi só quando minha irmã lhe chamou a atenção que ela pulou da cadeira e o abraçou, depois abraçou o segurança, o sorriso de volta, a alegria incontida, regada a bolo e Coca-Cola.
Comovida, dona Alice passou aquela noite escrevendo uma carta para Valderi, que entregou no dia seguinte, junto com um presente.




Valderi leu a carta, enxugou as lágrimas e disse, com voz engasgada:
- "Dona Alice, a senhora acabou de fazer um homem de cem quilos chorar!"
Com ou sem óculos, dona Alice tem por princípio enxergar sempre o bem nas pessoas. Mas ser surpreendida é sempre bom.

sábado, 29 de janeiro de 2011

confissão

Eu sempre fui a mais difícil dos três filhos de dona Alice: a filha egoísta, temperamental, briguenta, que falava alto, saía batendo portas, cantando pneus e que conseguia passar meses em greve de silêncio. Eu sempre digo que minha mãe devia ser canonizada por não ter me assassinado durante minha adolescência.
Dona Alice nunca se abalou com meus acessos de raiva. Nunca brigou, nunca levantou a voz. Enquanto eu chorava, me descabelava e culpava Deus e todo mundo pelas injustiças que eu acreditava terem sido cometidas contra mim, ela ouvia, paciente.
Em casa, minha mãe era o equilíbrio na dinâmica familiar. Enquanto meu pai, de personalidade severa, metia medo nas crianças, dona Alice fazia o contraponto - do jeito dela, sem alarde, e sem colocar em xeque a autoridade de meu pai.
Ele achava que eu era nova demais para ter as chaves de casa. Minha mãe me deu o molho sem medo quando fiz 15 anos, num gesto de confiança que até hoje me comove. Quando capotei com o carro de seu Roberto por excesso de velocidade, a única coisa que me preocupava diante do estrago era a bronca que ia tomar dele. Dona Alice, que foi me buscar no local do acidente, me apertava, como se não acreditasse que eu estivesse viva, e dizia que não tinha problema, que "carro a gente compra outro". Quando, depois de uma briga com meu pai, saí de casa, minha mãe foi a primeira a mandar para meu novo apartamento o que ela acreditava ser essencial para sobrevivência: um filtro de água e uma panela cheia de comida. Não importava que eu já tivesse quase 30 anos. Não satisfeita, juntou toda a coragem que tinha para escrever uma carta, desaprovando a atitude de meu pai. Depois, surrupiou uma televisão de sua casa para levar para a minha. Meu pai faleceu achando que alguém tivesse entrado durante a noite e roubado o aparelho - uma pequena contravenção em nome do papel de mãe.
Lógico que nem tudo são rosas nesses 36 anos. Dona Alice tem manias que levam qualquer um à loucura. A demora em sair de casa, por exemplo. "Vamos, vamos, estamos atrasados!", ela apressa. Quando estão todos na porta, chave em punho, são mais dez minutos até que ela mesma fique pronta.
E a teimosia? Quando minha mãe coloca algo na cabeça, não há quem a demova da ideia. E não duvide, porque ela vai conseguir o que quer, não importam os obstáculos e não importa quão maluca seja a proposta. Frases mal-colocadas também já deram origem a brigas. No dia em que passei no vestibular para medicina, uma tarde chuvosa em janeiro de 1993, cheguei em casa feliz, com o rosto pintado e anunciando a notícia. Ouvi de dona Alice: "Estou mais feliz hoje do que no dia em que você nasceu!". A frase reduziu minha alegria pela metade e, por anos, me ficou engasgada.
Depois de tantos anos morando sozinha, já faz quase dois anos que voltei a morar com dona Alice. O saldo da convivência é bom, embora com alguns períodos de turbulência. Às vezes - e isso me preocupa um pouco - sinto que estou mais mansa, que meu temperamento não é o que já foi um dia. Não brigo tanto quanto antes. Escuto e onde antes implicava, deixo passar. Mesmo a frase que antes tanto me incomodava, hoje me enternece. Entendo que foi a única forma que minha mãe encontrou de expressar o tamanho da alegria e do orgulho que sentia naquele momento. Era como se dissesse: "Não dizem que o nascimento de um bebê é a maior alegria que se pode ter? Pois bem, minha alegria hoje é ainda maior!"
A própria dona Alice tem reparado na mudança da megera domada. Talvez seja a idade. Talvez seja a preguiça. Ou talvez seja, finalmente, a sabedoria de que, no final das contas, dona Alice sempre sabe melhor.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

tardes musicais

Eu, por boa parte da minha infância e adolescência, rejeitei tudo que se relacionasse à cultura chinesa. No início, provavelmente por ser uma cultura completamente alheia à criação que recebera de minha babá brasileira. Depois, como uma forma de me encaixar na escola alemã em que estudava. E mais tarde, como uma maneira de protesto por ser obrigada a frequentar aulas de chinês aos domingos.
O que eu não sabia é que, mesmo sem querer, essa cultura que eu tanto recusava seria pano de fundo para muitas de minhas memórias. Lembro-me perfeitamente das tardes de domingo, em que meus pais e alguns amigos, imigrantes como eles, se reuniam na loja (onde era mais fresco), depois dos longos almoços, e passavam horas contando histórias e cantando músicas chinesas que eu não entendia, acompanhando a fita que tocava no gravador.
Esses dias, ouvi numa festa de aniversário uma das músicas que escutávamos naquelas tardes musicais. Descobri que a cantora era Teresa Teng, umas das maiores cantoras de Taiwan, dona de hits românticos conhecidos em toda a Ásia. Eram músicas de que meu pai gostava muito e que minha mãe até hoje canta com voz afinadíssima. Aos primeiros acordes de "Tian Mi Mi", uma das preferidas de seu Roberto, percebi, com surpresa e nostalgia, que sou muito mais chinesa do que pensava (ou gostaria de admitir).




quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

fast forward

Ontem dona Alice e eu fomos à festa de aniversário de 80 anos (81, segundo o calendário chinês) de um tio-avô. A festa foi uma ocasião quase de gala, terno e gravata, tafetá e salto alto, e inúmeros parentes vindo do exterior para prestigiar. Três gerações lotavam o salão do restaurante chinês mais caro de São Paulo.
A festa aconteceu nos moldes chineses: muitas fotos, muitos discursos, brindes emocionados, muita comida e microfone aberto para karaokê. Mas com o usual rigor e formalidade asiáticos, ninguém contava com homenagens tão sinceras, nem com demonstrações de carinho tão genuínas quanto as presenciadas na noite de ontem.
A primeira delas foi um pequeno filme, montado a partir de fotos, antigas e recentes, da trajetória de meu tio-avô: a vida em Taiwan; a mudança para o Brasil com cinco filhos, a caçula ainda no colo; o começo da vida no novo país, primeiro com uma floricultura, depois com um bazar; os filhos crescidos, depois os netos; as viagens, as festas, os parentes, os amigos. Enquanto o filme passava no telão, notei que que dona Alice, assim como eu, estava com os olhos marejados. Ao olhar ao redor, vi que outras pessoas também enxugavam, disfarçadamente, os olhos úmidos. Aquela história era, de certa forma, a história de todos nós.
A segunda homenagem foi uma música chamada "Coração Grato" (Gan En De Xin), cantada a plenos pulmões, e em meio a muitas lágrimas, por filhos, netos e agregados, acompanhados baixinho pelos convidados, inclusive dona Alice. Ao final da música, os cinco filhos, emocionados, abraçaram o pai. O octagenário reagiu como qualquer pai chinês da velha guarda pouco habituado a arroubos afetivos: um sorriso sem graça, um abraço rápido e um tapinha nas costas.
Para dona Alice, a festa foi uma espécie de fast-forward de sua vida daqui 20 anos. Hoje com 60 anos, uma de suas maiores preocupações é a velhice. Viúva, tem medo de ficar sozinha num país que não é seu. Tem medo de ser abandonada num asilo pelos filhos. Seu plano, que relata num tom de brincadeira mas que tem um quê de verdade, é contratar Cema, a balconista que já é quase da família, para cuidar dela quando ficar velhinha.
Mas ontem à noite, ao assistir, emocionada, as cenas que se desenrolavam à nossa frente, dona Alice viu que o futuro e a velhice podem não ser tão assustadores. Meu tio-avô, como ela, também atravessou oceanos, fez a vida com um bazar, criou filhos e estava envelhecendo num país estrangeiro. E lá estava ele, aos 80 anos, saudável, cercado de amigos e família, dono de uma vida intensa e feliz. Talvez um sinal de que, pelo menos pelos próximos 20 anos, dona Alice não tem com que se preocupar.

domingo, 19 de dezembro de 2010

dezembro(s)

Dezembro é um mês memorável para toda uma geração de adolescentes do Campo Belo. Com o frenesi de Natal, a única balconista que minha mãe mantinha o ano todo não dava conta do movimento e era preciso contratar uma legião de ajudantes - adolescentes em férias, a maioria do bairro, que queriam complementar a mesada com um dinheirinho extra no final do ano.
O trabalho não era fácil: atendíamos clientes, colocávamos preços em mercadorias, arrumávamos as vitrines. Aprendia-se por observação, porque na correria não dava tempo de ensinar nada a ninguém. A circulação era difícil, porque tínhamos que desviar de caixas, pacotes, sacolas, etiquetas, rolos de papel de presente. Só parávamos para almoçar e tomar lanche. Quando a correria acalmava um pouco, descansávamos lá dentro, cada um com uma tesoura, sentados nos degraus, enrolando fitinhas para colocar nos presentes. As horas passavam voando. No final do dia, a garotada mal se aguentava em pé, o cansaço estampado nas camisetas sujas e nos pés inchados.
Mas apesar da rotina puxada, eram 24 dias de muita diversão também. Passávamos horas testando brinquedos, experimentando perfumes, desvendando o funcionamento de relógios e jogos eletrônicos, dando risada de cada descoberta e cada erro. Todos os dias alguém aparecia com uma piada nova, com alguma história engraçada, com algum episódio inusitado com clientes. Meu pai, sempre bom anfitrião e adepto da filosofia de que "Saco vazio não para em pé", tratava a garotada a pão-de-ló. Até hoje ele é lembrado por isso. Quanto mais perto do Natal, melhores ficavam as refeições. Na véspera do Natal, a tradição do almoço era um pernil gigante, preparado pela dona Celme, que dava para alimentar uma tropa de 50 marmanjos.
Dona Alice tem ótimas lembranças desses 34 dezembros que passou atrás dos balcões. A loja sempre cheia e abafada, a energia da criançada que viu crescer e o clima de festa tornavam o cansaço de se administrar o bazar no Natal - trabalho que às vezes ia madrugada adentro - muito mais divertido. Na hora que os ajudantes iam embora, minha mãe sempre recomendava: "Descanse bastante, porque ainda temos xx dias até o Natal!"
Na tarde do dia 24, o bazar Liang parecia palco de uma batalha vencida. As vitrines vazias, todo mundo exausto. Era hora de trocar presentes do amigo secreto - sempre de chocolate - e dar a dona Alice as flores compradas às escondidas, com um cartãozinho assinado por todos os ajudantes daquele ano. Minha mãe tem todos os cartões guardados até hoje.
Passado tanto tempo desde os primeiros Natais, os ajudantes ainda fazem parte da vida do Bazar Liang. A maioria casou, alguns já tiveram filhos, outros mudaram de país, mas quando dá, passam pelo bazar para dar um beijo em dona Alice e relembrar histórias de dezembros passados: William, Ana Cristina e Verônica; Andrea e Margareth; Li Tumtum e Li Chuan; Cristiane e Daniela; Adriana e Marcelo; Aline; Tica; Karina; e, lógico, nossa querida e sempre presente Cema.
A todos vocês, nosso muito obrigada. Vocês ainda fazem os Natais no bazar Liang muito mais felizes.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

constante evolução

Na correria do mês de dezembro, dona Alice mal tem tempo para almoçar. O bazar vive lotado, clientes chegam com listas quilométricas e minha mãe, na adrenalina do balcão, esquece da fome. Quando dá uma brecha, ela corre para casa para comer alguma coisa. As refeições são sempre feitas às pressas, interrompidas por telefonemas, fornecedores e clientes que só aceitam ser atendidos por ela.
Eram quase duas da tarde quando ela conseguiu parar para almoçar hoje. Depois de devorar a comida em tempo recorde, o telefone começou a tocar insistentemente. Dona Alice estava escovando os dentes e não conseguiu atender. Começou a tocar de novo e enquanto descia as escadas correndo, minha mãe soltou, como se a pessoa da outro lado da linha pudesse ouvi-la: "Calma, cara (sic)! Não me faz pressão porque senão eu fico desequilibrada!"
É verdade o que dizem por aí: o português - pelo menos o de dona Alice - é uma língua em constante evolução.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

pequenas burocracias

Acho que a primeira vez que eu preenchi um formulário na minha vida eu tinha nove anos. Eram os cartões de matrícula da Escola União. Eu ia entrar na quarta-série, meu irmão na segunda e minha irmã no pré-primário. Meus pais, com pouco domínio do português e sem tempo para essas burocracias, deixaram a meu encargo o preenchimento das fichas verdes.
Com o tempo, o número de responsabilidades aumentou. Eu tinha que decifrar os comunicados da então Telesp, do Banco Bradesco, do Clube Banespa. Aos 14 anos, já era responsável por ler - e interpretar - resultados de exames e receitas médicas para a família. Fui eu quem confirmei para meu pai, depois de ler cuidadosamente o laudo, que meu avô tinha câncer de próstata.
Eu não me me questionava quanto a essas funções. Para mim, era o que todo adolescente fazia. Era parte do processo de virar gente grande.
Dona Alice nunca prestou muita atenção a essas coisas. Em sua rotina maluca de bazar e filhos, ela não ia a bancos, supermercados, não lia as correspondências oficiais que chegavam em casa. Suas consultas médicas eram marcadas, no início, por meu pai, depois por mim. E ela só ia se fosse acompanhada.
Hoje viúva e com filhos que quase não vê, dona Alice passa por um curso intensivo em vida burocrática. Sem ter quem faça para ela, ela assumiu as tarefas. Ontem, anunciou que havia renovado o seguro do carro. Anteontem, escutei uma conversa dela pelo telefone com a Cielo, negociando o valor da mensalidade. Na semana passada, ela marcou a consulta com o otorrino e foi sozinha até lá. Marcou os exames e foi sozinha até o Delboni fazê-los ("Mas Li, no jejum pode tomar água?"). Na semana retrasada, foi fazer um depósito no Banco Santander, onde nunca tinha posto os pés: "Cheguei lá e fiquei meio perdida. Mas aí perguntei e eles me ensinaram a tirar a senha!" Outro dia, caiu um temporal que acabou com a luz no bairro. A luz voltou logo depois, mas a TVA não. Dona Alice não teve dúvidas: ligou para o número que estava na TV para descobrir o que acontecia e fez a atendente dar uma previsão de quando o serviço ia estabilizar. Quando cheguei em casa, ela assistia a novela das 8, como se nada tivesse acontecido.
É quase um contrasenso: dona Alice cruzou o mundo para chegar no Brasil, fez a vida, criou três filhos, e ainda não conseguia se achar nas pequenas burocracias da vida. Mas está aprendendo. E eu assisto, orgulhosa, minha mãe virar gente grande.