segunda-feira, 30 de setembro de 2013

guru dos negócios

Dona Alice é dona do Bazar Liang há quase 40 anos. Sem nunca ter cursado uma faculdade de administração, tem um dos comércios mais longevos do Campo Belo e tem sacadas que ninguém sabe de onde vêm, mas que funcionam com os clientes.
Loja arrumadinha? Nem pensar. Cliente gosta mesmo é de loja bagunçada, onde se sente mais à vontade para fazer compras sem medo de desorganizar a vitrine.
Prateleiras minimalistas como as de shopping, com um exemplar de cada produto? Jamais. Cliente quer ver variedade, cores, tamanhos, tudo diferente. Cliente gosta de saber que a loja está bem abastecida.
Balcões desimpedidos, sem nada em cima? Não pode. Balcão tem que ter coisa em cima, mesmo que o cliente tenha que mover a pilha de echarpes para ver as carteiras na vitrine. É como se fossem os chicletes perto do caixa do supermercado.
Não conseguimos encontrar comprovação científica para as teorias de minha mãe, mas a verdade é que elas funcionam. Quando a loja está muito parada, por exemplo, ela dispara: "Vamos fazer bagunça". Coloca as balconistas para mudar os produtos de lugar, reorganizar as vitrines, e em pouco tempo o bazar está cheio. Nunca falha.
Graças às suas sacadas, o bazar da dona Alice continua sendo referência no Campo Belo e, do jeito que as coisas vão, em breve será o único remanescente no bairro. Só esse ano dois bazares na rua já fecharam. Numa época em que as compras se concentram em shopping centers, dona Alice consegue manter seu bazar funcionando a pleno vapor.

Em 2005, pouco depois da morte de meu pai, minha mãe teve a ideia de montar um negócio de importação de pantufas. Recém-saída da FGV, minha irmã, que nunca havia se encaixado no mundo corporativo mas que sempre havia gostado de comércio, se juntou a ela. Nenhuma das duas sabia nada de comércio exterior, mas se atiraram de cabeça na empreitada. Erraram daqui, acertaram de lá e com o tempo aprenderam a conduzir o negócio. Dona Alice nunca havia trabalhado com calçados, muito menos com moda, mas seus palpites eram sempre certeiros.
- "Essa cor não vende."
- "Esse modelo de cano alto é muito difícil de calçar. Não vai ter saída."
- "Essa estampa vai fazer sucesso, mas não nessa cor."
Já se vão quase dez anos e as pantufas vão muito bem, obrigada. É minha irmã quem administra o dia a dia da empresa, mas para as grandes decisões sempre pede a opinião de minha mãe. Dona Alice nunca erra.

No ano passado, foi minha vez de me aventurar pelas águas do empreendedorismo. Montei uma editora voltada para publicações médicas - acho que não sei fazer outra coisa -, mas não demorou muito para que eu me desse conta de que revistas eram bem diferentes de pantufas: o público, o período de maturação do produto, o posicionamento no mercado, a logística envolvida. Minha experiência se limitava às questões editoriais. Eu sabia criar uma revista do zero, mas não fazia ideia de como viabilizar uma empresa.
Com a experiência de décadas à frente do bazar, dona Alice me aconselhou como pôde:
- "Faça um valor mais baixo de anúncio para a empresa anunciar a primeira vez."
- "Tente trazer as empresas grandes, assim as pequenas vão querer anunciar também."
Nada funcionou. A revista era um sucesso entre os leitores, mas a editora continuava no vermelho, impávida. Eu, que havia lançado a publicação cheia de esperança e grandes planos, me vi num beco sem saída. Por melhor que fosse a ideia, não fazia sentido continuar investindo se ela só desse prejuízo. Os dias passavam e eu me via cada vez mais decidida a fechar a revista. Tem horas em que é preciso admitir a derrota.
E eis que, no auge do meu desespero, recebo um email de dona Alice:

querida filha;
tudo bem? vi võce trabalha muito ,e nao tem como te ajudar ,desculpe˜me,
como nao  é comercio normal, tipo  pantufa ,,tipo roupa , tipo perfume   ..entao
    só võce mesma tem que enfrentar ;mas eu acredida que lago võce vai ter bom resutado ,
comercio tem um secreto ;;nao tem nada que nao consequir vender ..só nao consequer vender
É PREÇO,,,,
pregio de 1000 netro de aldura ,começo pelo chaõ.,,grande MAR ,água vem de  monte de  riachos pequeno,.......
filha ,,nao se desepeciona ,vai em frente ,lenbra se ;quato võces eram pequena ,caminho que 
ira para GUARUJA ,tinha que passar por monte de TUNHO ESCURO ,depois de tudos tunhos passou ,apareceu na frente É SOL BRILHNTE ,MARAVILHOSA DA ONDA  DANÇANDO  NO MAR.,, PRAI SEM FIM DE AREIA BRANCA ,,,,... filha só passar essa tumho .futuro de revista marvimhosa   estar na frente .
mamae e seus irnaos  apoiamos võce ,em tudo momento ,
te amo muito muito .
um beijo
mamae

Dona Alice não conhece o mercado editorial, mas me deu algo melhor que qualquer dica de negócio: me deu coragem para seguir em frente. A revista acaba de completar um ano e aos poucos vamos saindo da zona de perigo. Os túneis vão ficando para trás e já começo a ver uma pontinha de mar lá longe.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

termos precisos

Da série "Confusões de dona Alice"

Sábados são sagrados para a dona Alice. É o dia da semana em que ela sai para fazer compras, conversar com fornecedores, conferir as novidades para seu bazar. É o dia também em que ela compra papel de presente, embalagens, fitas e sacolas. Minha mãe não dá muita bola para essas coisas - ela nunca ligou muito para embalagens - mas graças à exigência da Cema, que não resiste a fitas coloridas, papeis metalizados e um belo laço, o bazar não faz feio quando se trata de pacotes caprichados.
Esse sábado dona Alice chegou com o carro abarrotado de compras. Além das mercadorias, havia comprado também sacolas para colocar os presentes. Quando abrimos o pacote, no entanto, ao invés das tradicionais sacolinhas brancas, encontramos sacolinhas vermelhas e cor-de-rosa, com um plástico de melhor qualidade. Certamente havia custado o dobro do preço que ela paga pelas outras.
- "Mãe, por que essas sacolinhas tão chiques?"
- "Ah, filha, não consegui passar na loja para comprar as sacolinhas normais. Aí lá perto de onde fui fazer compras encontrei essas aqui, acabei comprando."
- "Mas elas devem ter saído bem mais caras que as sacolinhas brancas."
- "Ah, saíram mesmo, então não é para desperdiçar. É para usar apenas quando tiver um precisão."
- "Precisão, mãe?"
- "É, quando estiver precisando muito. Quando tiver um precisão."

programa inédito

Da série "Confusões de dona Alice"

Geralmente não fazemos as refeições com a televisão ligada, mas nos últimos tempos dona Alice passou a almoçar assistindo à TV. Como almoça sozinha na loja, enche sua tigelinha de arroz e liga o aparelho, muitas vezes mais pelo barulho do que pela programação em si.
Outro dia, entre uma reunião e outra, fui almoçar com ela no bazar. Ela já estava a postos, tigelinha cheia, pratos na mesa e a TV ligada. Começamos a conversar, enquanto a Globo transmitia alguma matéria bobinha, provavelmente algo sobre a Xuxa ou a estreia da próxima novela das seis.
Irritada, dona Alice pegou o controle remoto.
- "Nossa, que besteira. Vamos assistir outra coisa. Que canal tem aquele programa Aretha?", perguntou.
Não entendi o que ela quis dizer. Aretha é o nome da nossa golden retriever. Será que era alguma série sobre animais? Ou algum programa novo sobre cães que ela havia achado enquanto zapeava durante o almoço?
- "Aretha, mãe? Que programa é esse? É sobre bichos?"
- "Não, filha. Aquele programa, como chama... Aretha. Cidade Aretha."

domingo, 24 de fevereiro de 2013

orgulho


Dona Alice continua em desvantagem quando se trata da prova "Quem tem mais netos" na comunidade chinesa. Enquanto seus amigos contabilizam netos que aumentam em progressão geométrica, dona Alice tem que se contentar em mimar a Aretha, nossa golden retriever. Diz que não se importa, mas sempre conta com uma certa inveja as façanhas dos netos de amigos. Um que começou a andar, outro que já fala chinês fluente, outro que acabou de ser aceito na escola americana. E a filha de fulano de tal, que acabou de dar o terceiro neto HOMEM para a família? Quanto orgulho!
Minha mãe vibra com as histórias de seus amigos, sem deixar de sonhar com o dia em que também poderá contar as façanhas de seus próprios netinhos.
Recentemente, meu irmão foi aceito num programa de mestrado em Sorbonne, na França. As universidades americanas são velhas conhecidas da comunidade - na minha época, a medida do sucesso de uma família chinesa era ter um filho numa universidade americana. Já as instituições europeias são um mistério. Pouquíssimos amigos do círculo de minha mãe conhecem as universidades no Velho Continente. Ela mesma, quando ouviu falar de Sorbonne pela primeira vez, fez cara de ponto de interrogação. "Sorbonne?", perguntou. "Como 'suborno'?"
Quando soube do calibre da instituição, quis sair contando por aí. "Minha vontade é alugar um carro com um alto-falante e avisar todos os meus amigos!", comemorava. Mas qual a graça de contar uma novidade desse tamanho se as pessoas para quem contaria não tinham nenhuma referência sobre ela?
Dona Alice não teve dúvidas: foi descobrir como se falava Sorbonne em chinês. Mas ciente de que só aquele nome não seria capaz de gerar o espanto e admiração que esperava pela façanha de seu filho - afinal, ela comemora façanhas muito menores dos netos de seus amigos! -, pediu para meu irmão listar algumas pessoas importantes que já haviam passado por lá. Meu irmão citou alguns nomes. Para não esquecer, dona Alice tomou nota.



Além da grafia de Sorbonne em chinês, estão na lista: CATOSO (Fernando Henrique Cardoso), Gioqim Barbosa (Joaquim Barbosa) e Vitor Hugo. Em português e em chinês, para poder se orgulhar nas duas línguas.
E enquanto dona Alice conta das conquistas de seus filhos, nós nos orgulhamos dela por motivos que vão muito além da entrada numa universidade. Com a palavra, meu irmão:

"Hoje faz exatamente 1 mês e 20 dias que cheguei em Paris.

Antes de embarcar para Europa, no aeroporto, fiquei me perguntando se sentiria saudades do Brasil. Afinal de contas, em tempos de Internet e telefones celulares, onde todo mundo e o mundo todo anda conectado o tempo inteiro, achei que essa palavra tão única da língua portuguesa tinha perdido um pouco da sua força: ficou com saudades, basta ligar. Pronto, matou a saudade.

Para minha total surpresa, aconteceu justamente o contrário. Fazia muito tempo que eu não sentia tanta falta da minha família, dos meus amigos, da comida, do clima, das referências, das conversas e da cultura que deixei no Brasil. Dá até vergonha de falar isso, sendo que não se passaram nem dois meses. Além disso, não é que eu esteja em Tristão da Cunha, a ilha mais isolada do mundo. Eu estou em Paris, a cidade mais visitada do mundo. A única que pode ser chamada de Luz.

E ainda assim, a saudade do Brasil faz tudo por aqui parecer meio escuro. Às vezes, escuro até demais.

Não por acaso, fiquei pensando na minha mãe. Em como teria sido pra ela ter saído de Taiwan para ficar indefinidamente no Brasil, sem prazo para voltar. Como será que ela se sentia no Brasil quando pensava na família, nos amigos, na comida, no clima, nas referências, nas conversas e na cultura que tinha deixado naquela minúscula ilha perdida no Pacífico? Sem Internet. Sem telefone.

É um absurdo sequer cogitar qualquer comparação. Eu moro sozinho em um apartamento, minha mãe dividia com meu pai um quartinho nos fundos de uma casa na Vila Mariana. Eu estou a apenas 12 horas de avião da minha vida em SP; ela estava a mundos e mundos de distância de tudo que ela conhecia. Eu cheguei sabendo o idioma; Dona Alice chegou falando “sim”, “não”, “por favor” e “obrigado”. Eu vim para cá em busca de um simples diploma; minha mãe, em busca de uma nova vida.

Porém, eu sei que em breve, a saudade que eu sinto do Brasil vai diminuir e que esse período de adaptação vai ser apenas isso: um período de adaptação. O que eu não sei – e é algo em que penso cada vez mais frequentemente desde que cheguei aqui – é se minha mãe ainda está vivendo este período. Tudo indica que sim, caso contrário minha irmã não teria tantas histórias emocionantes e engraçadas para contar neste blog e o Bazar da Dona Alice não seria o lugar tão especial que é para tantas pessoas.

E se este for o caso, se de fato minha mãe vem vivendo este período tão difícil de adaptação há quase 40 anos, então eu confesso que ela conseguiu algo que eu achava impossível de acontecer: fazer com que eu a admirasse e a respeitasse ainda mais."

domingo, 10 de junho de 2012

a partida

O telefone tocou às 16h do sábado. Minha avó, que morava em Taiwan, há tempos já dava sinais de que não duraria muito tempo. Com quase 90 anos e na cadeira de rodas, já estava bem debilitada. Segundo os médicos, era só uma questão de tempo.
No dia 04 de dezembro minha tia ligou para dizer que o fim parecia próximo, era melhor minha mãe se preparar para uma viagem de emergência. Compramos a passagem e no dia seguinte, dona Alice estava num avião da Swiss Airlines rumo a Taiwan.
Não era a primeira vez que minha mãe passava por isso. Em janeiro de 1986 ela também recebeu uma ligação de Taiwan, avisando que seu pai, que há anos sofria de um câncer de estômago agressivo, não aguentaria por muito tempo. Dona Alice não pensou duas vezes: comprou uma passagem a preços exorbitantes e embarcou assim que pôde. Meu avô, que nunca conheci, aguentou mais uma semana. Faleceu com minha mãe, sua primogênita e filha preferida, ao lado dele.
Não sabíamos se esse seria o caso com minha avó. Primos e tios nos passavam updates da condição dela via MSN e Facebook (a beleza da tecnologia), já que minha mãe estaria incomunicável pelas próximas 30 horas. As atualizações eram otimistas: tudo indicava que ela resistiria mais alguns dias.
Não resistiu. Minha avó faleceu duas horas antes de dona Alice pousar em Taipei. No aeroporto, sua família a esperava com as notícias. Por tão pouco, dona Alice não conseguiu se despedir.
Quem nos avisou aqui no Brasil foi minha irmã, que mora na Suíça.
- "Mamãe ligou aqui chorando e disse que a A-Ma faleceu duas horas antes de ela chegar. Não deu tempo de ela se despedir. Ela disse que a A-Ma não quis esperá-la." Minha irmã também chorava.
Minha mãe sempre carregou consigo uma culpa: a de não ter cumprido seu papel de filha mais velha. Mudou-se cedo para o Brasil e deixou a responsabilidade de cuidar de seus pais na velhice para sua terceira irmã, que foi a fiel escudeira de minha avó até sua morte. Aquele era o castigo final. Na imaginação vívida de minha mãe, minha avó não a havia esperado de propósito. Uma merecida punição pelos anos de ausência.

Como manda a tradição chinesa, minha avó não foi enterrada imediatamente. A melhor data para o enterro precisava ser escolhida e durante quase três semanas, o caixão ficou fechado em casa. Minha avó morava no interior de Taiwan e sua casa, como a nossa aqui no Brasil, ficava nos fundos de um comércio: um armazém, conhecido por toda a cidade, e que com o tempo passou a ser mais fonte de distração do que lucro de fato. Uma espécie de sala de estar aberta ao público.
A notícia da morte de minha avó correu a vizinhança e todos foram prestar homenagens, como num velório que se estende por dias a fio. A tradição exige que um membro da família fique sempre junto com o caixão. Tios, primos e agregados se revezavam na tarefa durante o dia. O turno da noite ficou reservado para minha mãe. Com o fuso horário ainda fora de sincronia, a missão caiu como uma luva para dona Alice.
E nessas noites, minha mãe lentamente redescobriu sua própria família, que há tempos havia deixado para trás. No silêncio das madrugadas, tornou-se confidente de seus sobrinhos, relembrou histórias de infância com suas irmãs e se atualizou das notícias do bairro onde cresceu. A dor de não ter conseguido se despedir ainda apertava o coração, mas dona Alice aos poucos se deu conta de que minha avó não havia lhe deixado uma punição, mas um presente: naquelas noites ao lado dela, minha mãe reencontrou suas origens.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

descrições

Engraçadas as expressões que as pessoas usam para descrever outras. Numa troca de emails recente sobre uma proposta de trabalho, a moça que me escreveu acabou me encaminhando - acidentalmente, imagino - uma outra mensagem, onde eu era descrita como a "chinesa que tem MTB". Morri de dar risada, porque já fui descrita de várias maneiras, mas nunca como uma chinesa com um registro profissional.
Contei para dona Alice, que também caiu na gargalhada. Começamos a conversar sobre como o email certamente tinha chegado a mim por engano, porque, embora engraçado, me parecia pouco polido se referir a alguém dessa forma numa mensagem profissional.
Dona Alice, conhecedora do temperamento da filha, não perdeu tempo:
- Mas Li, melhor ser a chinesa que tem MTB do que a chinesa que tem TPM, né?
Caso encerrado.

originalidade

Os Natais das crianças Liang nunca foram muito parecidos com os que víamos na TV. Árvore de Natal começamos a ter só depois de grandes - com todas as mercadorias, nossa casa, que ficava nos fundos da loja, não tinha espaço para mais nada. Os presentes eram escolhidos do bazar mesmo, na manhã do dia 25, quando algum brinquedo legal ficava nas prateleiras. Papai Noel dizendo Ho-ho-ho era praticamente uma lenda urbana.
Quando era pequena, a falta de clima de Natal em casa me incomodava. Via os clientes num frenesi de compras, escolhendo uma infinidade de presentes para seus filhos - brinquedos que nós, crianças, ajudávamos a escolher e empacotar - e pensava: "Puxa, eu também queria um Natal assim...". Lembro-me de uma véspera de Natal que passei chorando. Devia ter uns sete anos. Depois que as lágrimas secaram, resolvi que não adiantaria nada ficar sentada na cama me lamentando. Tinha que partir para a ação. Maquinei um plano mirabolante para fugir de casa e encontrar uma família que me proporcionaria um Natal como aqueles que eu via nas propagandas de supermercado. Quando já tinha tudo planejado em detalhes na minha cabeça, meu plano desmoronou diante do obstáculo supremo: e se tivesse uma barata na loja?
Acabei desistindo e caí no sono. O Natal passou e a vida seguiu.
Hoje, tantos anos depois, já desenvolvemos as nossas próprias tradições natalinas, que embora em nada lembrem os anúncios da TV, representam a nossa comemoração e o nosso espírito de gratidão por mais um ano que se vai. A troca de presentes nunca foi grande parte disso.
Mas dona Alice sempre surpreende. Ano passado, depois de um dezembro conturbado, com viagem inesperada a Taiwan por causa de minha avó e o cansaço típico da última semana pré-Natal, minha mãe interrompeu nosso jantar de Natal para me dar um pacotinho, embrulhado no papel de presente do bazar.
- "O que é isso, mãe?" - disse, entre uma garfada e outra de bacalhau.
- "Abre, filha! É o seu presente de Natal!"
Quando abri, era uma caixinha de madeira que eu havia trazido para ela de Moçambique. Olhei para ela confusa. Ela estava me dando um presente que eu havia dado a ela? Dentro, um bilhetinho. E nele, meu presente de Natal.



"Querida filha: Feliz natal. Vale de uma (bolsa de couro) para você. Presente de natal. Mamãe te amo muito. Liang Yi Mei"

Dona Alice vivia reclamando que eu andava sempre com a mesma bolsa surrada. O vale-bolsa foi a forma mais prática que encontrou de me presentear. Com uma boa dose de criatividade e bom humor, minha mãe arrancou de mim um sorriso que não conseguiria com nenhum outro presente.
Ela bem que tentou me arrastar até o shopping para trocarmos o vale-presente. Fomos algumas vezes, mas não consegui achar nada. Nenhuma das bolsas me parecia tão bonita quanto aquele bilhetinho que havia recebido. Acabei ficando com minha velha bolsa (em atividade até hoje) e guardei o vale com carinho na minha caixa de cartas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

lucky long long

Long Long foi atropelado às 9h da manhã do dia 3 de janeiro. Um filhotinho de vira-lata, que resolveu mudar de ideia no meio da avenida movimentada. Meu irmão não teve tempo de brecar. Ao perceber o que havia acontecido, parou o trânsito para socorrer o pobrezinho. Comoção na rua Funchal, no Itaim. Algumas pessoas pararam para ajudar. Uma moça se colocou à disposição para ajudar no que fosse preciso. Uma senhora fez questão de acompanhar meu irmão numa terça-feira passada entre consultas, exames e radiografias, que constataram que o cãozinho havia sofrido uma fratura e precisaria de cuidados especiais. Passou três dias no hospital e foi batizado de Long Long - dragãozinho, em chinês. 2012 é o ano do dragão.
Eu e dona Alice, em férias em Santa Catarina, soubemos da saga através de um telefonema desesperado de meu irmão, pedindo o telefone da veterinária. Recebíamos updates detalhados à medida que a condição do cãozinho melhorava. Long Long, no final daquela semana, já estava fora de perigo.
E no final daquela semana, meu irmão também já estava completamente apaixonado por ele. Era um filhote de boa índole, dizia ele. E se olhasse bem, dava para ver que ele tinha algo de golden retriever, continuava. "Li, você não quer sondar com a mamãe se a gente não pode ficar com o Long Long?"
Não precisei ir muito longe. Dona Alice na hora sacou nosso plano genial e acabou com ele com um "não" categórico: não havia espaço para mais um cão na casa; a Aretha não ia gostar da competição; e no final das contas seria mais um cachorro sob responsabilidade dela.
O que ela não esperava é que o cãozinho fosse, de fato, tudo aquilo que meu irmão dizia. De volta a São Paulo, fizemos uma campanha online para encontrar um dono para Long Long. Já recuperado do susto mas ainda não 100%, ele passava os dias na loja, atrás do balcão. E bastaram dois dias para ele cair nas graças de dona Alice e dos clientes.
- "Vocês sabiam que ele me segue para onde eu for?"
- "Hoje ele conseguiu dar a volta em meio quarteirão! A patinha está melhorando."
- "Passou aqui um senhor querendo adotá-lo, mas acho que devíamos ficar mais um pouco com ele..."
Long Long recebeu tratamento VIP. Em sete anos, nossa golden retriever nunca viu um pedaço de carne. O cachorrinho acidentado foi tratado a arroz, frango, cebola e shoyu durante toda sua estadia.
Depois de quase duas semanas, Long Long foi adotado por um casal simpático que - surpresa! - caiu de amores por ele logo de cara. Beatriz, que acompanhou e auxiliou na história desde o início, e seu marido Gustavo se encarregaram dos cuidados que ele ainda precisava receber e o levaram para morar num sítio lindo, cheio de espaço, onde ainda teria a companhia de três pastoras alemãs para a folia.
Na hora da despedida, dona Alice quase não conseguiu conter as lágrimas. Fez uma marmita para o Long Long, brincou mais um pouquinho com ele, mas não conseguiu acompanhá-los até o elevador. Sentada no sofá, olhos marejados, confessou: "Puxa, estou arrependida de não ter ficado com ele."
Long Long, por sua vez, sarou completamente, ganhou uma nova família e mudou de nome: Lucky. Não tinha como ser outro.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

dia de festa

Aretha, nossa golden retriever, completou sete anos em setembro do ano passado. E na ausência de crianças na família - para desespero completo de dona Alice - as festinhas são dadas para ela. Essa história começou quando ela fez seis anos e fizemos um ímã de geladeira para distribuir aos clientes que são fãs de nossa mascote.
Para o seu sétimo aniversário, a comemoração foi mais elaborada. Além do ímã de geladeira teve também lembrancinha: florzinhas de balas de goma, criação da Cema, rainha das invenções.
E teve festa non-stop. Um que passava, afagava, outro que vinha dar um biscoitinho. Aretha ganhou carinho e presentes o dia todo. Teve até uma cliente que apareceu na loja perguntando se haveria festa.
- "Como você sabe?"
- "Ué, hoje não é aniversário da Aretha? Tenho o ímã do ano passado na minha geladeira!"
Aretha chegou em nossa casa com pouco mais de dois meses e já completou sete anos. E é estranho pensar que usamos o mesmo calendário para marcar datas tão opostas: Aretha chegou exatamente um mês depois de meu pai ter partido, no final de 2004.
Nesses sete anos, Aretha mostrou que pode haver alegria depois da tristeza. E mostrou que a vida é assim, feita de altos e baixos, momentos bons e ruins. Até ela, que nos resgatou de um abismo do qual achávamos que não sairíamos, já passou por isso: dois tumores, duas cirurgias, pós-operatórios de deixar qualquer um de cabelo em pé e a prova de quem nem só os gatos têm sete vidas.
Hoje Aretha é uma jovem senhora e seu rosto começa a ficar branco. Não corre com o mesmo vigor, se cansa bem mais facilmente. Mas ainda é a fiel escudeira de minha mãe e a maior atração do bazar da dona Alice. Aretha segue ensinando que a vida é bem mais simples do que pensamos: com boa comida, água limpinha, um pufe fofo, amigos queridos e muito carinho, não dá para querer muito mais.
Parabéns, Arethinha! E que venham os próximos sete!



"Hoje vai ser uma festa!"

Cema e Camila, responsáveis pelas florzinhas

é pique, é pique!

Dona Alice e Camila

Rosa, cachorreira assumida, ganha um beijoca

Seu Luís, a pessoa preferida do universo

Dona Lúcia, a quituteira do bairro

Todo mundo vira criança para brincar com a Aretha

Louro faz-tudo e o porteiro do prédio cantam parabéns

Aniella, vizinha e amiga querida, ganha beijo da aniversariante

O senhor do prédio de tijolinhos que passa todo dia para ver a Aretha

"Hoje vai ter festa?"

Marli, que arruma a bagunça que a Aretha faz em casa

Eliana, Aretha e BFF (best friend forever) Joy dividem o lanche

Aretha e seu melhor amigo

Passarinho? Onde?

Aretha e o presentinho do seu Luís

As moças do salão de beleza posam com a aniversariante

Aretha ganha mais um afago

E a maior fã da Aretha - notem a folga do cão





quarta-feira, 28 de março de 2012

fantasias

Eu estava na primeira série da Escola União e a ocasião era uma festa em que eu dançaria balé. Não me recordo qual era a data, se Dia das Mães ou festa de fim de ano. A explicação de como fazer a fantasia viera no papel mimeografado, com cheirinho de álcool, escrito em letra de forma. Material, molde, como medir, cortar e colar. Naquela época, as mães ainda faziam as fantasias de seus filhos.
Dona Alice, ainda com pouco domínio do português, fez a fantasia da forma que achou mais parecida com a figura e do jeito que achou mais bonito. Nem me lembro qual era a personagem, se uma margarida ou uma fada. Mas ficou claro quando chegamos ao local da apresentação que minha fantasia não estava igual às outras. E ao me ver diferente, desatei a chorar, num misto de decepção, vergonha e raiva. Participei da dança a contragosto, com a nítida sensação de que todos estavam olhando para aquela menina gordinha, de olhos puxados, maria-chiquinha e a fantasia mais feia de todas.
Dona Alice, sem conseguir conter o choro da filha e sem vocabulário suficiente para consolá-la, prometeu a si mesma que daquele dia em diante estudaria português, diligentemente. Sua filha nunca mais passaria vergonha porque ela não sabia ler.
Minha mãe cumpriu essa promessa ao longo de toda uma vida. Em meio à rotina maluca de loja, casa, marido e filhos, encontrou tempo para ler - e se encantar - com obras como "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway, "Éramos Seis", de Maria José Dupré, e "O Veleiro de Cristal", de José Mauro de Vasconcelos. Lia com o dicionário português-chinês a seu lado e seus livros viviam cheios de anotações. Cumpre a promessa até hoje, ao copiar diariamente, pelo enésimo ano consecutivo, o livro devocional "Mananciais no Deserto".
Mais de três décadas depois, ainda sinto um misto de emoção e vergonha quando ouço essa história. Com apenas sete anos na época, entendo que se tratava da reação de uma criança. Mas me comove que Dona Alice conte esse episódio sem mágoa ou ressentimento, apenas dando risada do seu português hesitante nos seus primeiros no Brasil. E num devaneio, me imagino voltando no tempo, àquele dia, àquela cena. E nela, a pequena chinesa de maria-chiquinhas daria um beijo em sua mãe, agradeceria a roupa diferente e, feliz da vida, sairia dando piruetas desengonçadas diante da plateia, que só teria olhos para a fantasia mais bonita do mundo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

a má educação

Dona Alice admite que em muitos momentos de nossa infância e adolescência teve dúvidas quanto à forma com que nos educava. Seus filhos não falavam mandarim fluente, tinham amigos em sua maioria brasileiros e não conseguiam sair do livro do jardim da infância nas aulas de chinês.
Essas dúvidas ficavam ainda piores quando voltava para Taiwan, porque lá era confrontada com o modelo de educação que teoricamente teria que ter adotado para nos criar. O problema é que, embora seu sotaque continuasse carregado, sua forma de pensar havia se tornado muito mais aberta e flexível ao longo dos anos no Brasil. Ela mesma sentia um certo choque cultural reverso quando retornava à terra natal: seu taiwanês, a língua que usava com a família, era hesitante; palavras em português apareciam aqui e ali; a rigidez com as crianças parecia um pouco extrema e algumas tradições se mostravam um tanto fora de lugar.
Foi numa de suas viagens que dona Alice percebeu o quanto estava distante da realidade que um dia deixara, e que suas irmãs, sobrinhos e sobrinhos-netos ainda viviam. Minha mãe é a mais velha de cinco irmãs (os dois únicos meninos da família morreram tragicamente durante a infância, um de meningite, outro atropelado por um ônibus), sendo que a caçula é 18 anos mais nova que ela. Com exceção de dona Alice, essa irmã caçula foi a única que saiu da cidade de interior onde nasceram: arrumou um emprego em Taipei, casou-se com um engenheiro e juntos se mudaram para Amsterdam, em meados da década de 90, para que ele terminasse seu doutorado. Mas, ao contrário de minha mãe, minha tia resolveu voltar, sem agregar nada do que havia aprendido no exterior à sua nova vida. Comprou uma casa no mesmo bairro em que cresceu e não sai da casa de minha avó por nada no mundo. Se houve alguma mudança, a temporada no ocidente serviu para que ela se agarrasse ainda mais às tradições e aos costumes.
Quando minha mãe e sua irmã caçula se encontram, ficam ainda mais evidentes as diferenças que tomaram corpo com o tempo. Numa visita recente de dona Alice a Taiwan, mesmo com minha avó hospitalizada, minha tia não deu uma trégua.
"Que educação é essa que você deu a seus filhos? Onde já se viu, deixar suas filhas soltas pelo mundo (a expressão em chinês é bem mais enfática), sem você saber o que elas estão fazendo? E seu filho? Como assim ele não foi para o Exército (em Taiwan, o serviço militar é obrigatório, tenha o rapaz pé chato, 15 graus de miopia ou um tio influente no governo)? Nenhum menino se torna homem sem passar pelo Exército."
As críticas de minha tia não cessam. Para ela, o fato de dona Alice ser a mais velha da família e ainda não ter netos é obviamente resultado da educação "solta" que ela nos deu. Eu e meu irmão ainda somos solteiros, minha irmã caçula é casada com um estrangeiro, que - horror dos horrores! - ainda por cima é careca. O material para a ladainha não acaba.
Dona Alice no começo procurava explicar. Mas depois de algumas tentativas frustradas, desistiu. Por muito tempo, ela mesma sentia um certo estranhamento em relação à educação que havia nos dado: viajávamos de mochila por aí, para lugares que ela nem sabia achar no mapa, gostávamos de comidas estranhas, trabalhávamos em profissões que fugiam do ideal chinês medicina-engenharia-direito, conversávamos numa língua que ela não dominava completamente. Quem eram essas pessoas que ela havia criado?
Mesmo assim, algo dentro de minha mãe diz que ela acertou ao nos educar com a medida certa de amor e autoridade, zelo e limites, flexibilidade e responsabilidade. Os netos, eventualmente, virão.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

pão preto

Da série "Confusões de dona Alice"

Estávamos a caminho do supermercado quando passamos na frente do Essen, um novo restaurante na Vieira de Morais, especializado em cozinha suíça, que até bem pouco tempo ainda estava em obras.
- "Nossa, mãe, o restaurante já inaugurou?"
- "Já, inaugurou hoje no almoço. Eles inclusive distribuíram pan preto para fazer propaganda."
- "Pão preto? Mas por que, pão preto é a especialidade deles?'
- "Não, filha. Pan preto, aqueles papeizinhos que eles distribuem para fazer propaganda do restaurante, sabe? Eles deixaram alguns na loja para a gente entregar para os clientes."
- "Não é pan preto, mãe. É panfleto."
Se bem que, para conquistar dona Alice, pão preto seria uma estratégia bem mais eficaz do que panfletos.



domingo, 4 de setembro de 2011

aluna exemplar

Sempre que penso que minha mãe tinha apenas 23 anos quando se casou com meu pai, se mudou para o Brasil e começou a batalhar para ganhar a vida, fico espantada. Com a mesma idade eu fiz o caminho inverso, mas com matrícula feita na universidade em Pequim, dormitório reservado, gente para me buscar no aeroporto e grana para viajar - e ainda assim foi difícil.
Dona Alice sempre viajou, mas raramente sozinha. Suas viagens aconteciam geralmente com meu pai, com alguma amiga ou em grandes grupos. A primeira vez que teve que viajar completamente sozinha foi para a minha formatura do mestrado, em Berkeley, na Califórnia. Meu pai não poderia participar, ela viria sozinha. E quando liguei para ela para acertar os detalhes, o que havia em sua voz não era entusiasmo - era preocupação, o que para mim era incompreensível. Aos 23 anos, numa época em que tudo era mais longe, mais demorado e mais complicado, ela havia feito o mais difícil. Como uma simples viagem solo podia ser motivo para tanto medo?
Para tranquilizá-la, disse: "Mãe, o pior que pode acontecer se você se perder é conhecer um lugar novo. E isso nem pode ser considerado ruim, vai". Com esse novo lema na cabeça, ela fez a escala em Nova York direitinho e chegou em San Francisco inteira, sã e salva. Mesmo assim, o medo estava sempre presente quando tinha que viajar sozinha.
Essa preocupação foi completamente resolvida há um mês, quando meu irmão foi deixá-la no aeroporto de Guarulhos para que ela embarcasse para a China. Na conversa durante o caminho para o aeroporto percebeu que o medo de dona Alice era de não saber o que fazer primeiro, de não achar a informação para o próximo passo. Alguém sempre havia orientado para onde ir, o que fazer, que documentos mostrar, em qual portão embarcar. Era hora de ela aprender sozinha.
Chegaram no saguão e dona Alice ficou esperando que ele mostrasse o caminho.
- "E agora, mãe, para onde vamos?"
- "Não sei. Você não sabe?"
- "Mãe, o que a gente tem que fazer agora? Não é o check-in?
- "É."
- "Então, temos que procurar o guichê da companhia aérea. De que companhia você vai?"
- "De Swiss."
- "E onde é o guichê da Swiss?"
- "Não sei."
E a partir desse diálogo, minha mãe teve um curso intensivo sobre o bê-á-bá das viagens: aprendeu onde encontrar o guichê da companhia aérea, como fazer o check-in, onde embarcar, que cartão mostrar, como procurar o portão, como saber se o voo estava no horário.
- "Mãe, o segredo no aeroporto é olhar para cima. As placas e os monitores é que vão te mostrar para onde você tem que ir".
E foi olhando para cima que dona Alice desbravou sozinha o aeroporto de Guarulhos, prestando atenção em tudo, como se nunca tivesse estado lá. Foi olhando para cima que ela embarcou sem maiores incidentes de Hong Kong para a Suíça, e da Suíça para o Brasil. E ao descobrir a independência que vem com saber seu próprio caminho, sucumbiu também à mochila, que por muito tempo relutou em carregar porque não combinava com seu visual. Hoje, ela é adepta da mochila como uma adolescente, porque "é bem mais prático de carregar".
Dona Alice chegou essa semana de sua viagem. Enquanto desfazia suas malas, ia contando suas peripécias e as novidades de seu lado da família. E quando já estava quase no fim da contação de histórias, declarou, radiante, que adorava viajar e que agora estava pronta para desbravar o mundo sozinha.
- "É tão fácil, né? É só olhar para cima e seguir as placas. E se eu me perder, eu conheço um lugar novo!"
Dona Alice é o sonho de qualquer professor.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

sábados brasileiros

Minha mãe já estava no Brasil há mais de um ano quando meu pai a levou para provar seu primeiro prato tipicamente brasileiro.
Seu Roberto, que já morava aqui há cinco anos quando casou minha mãe, tinha um paladar absolutamente eclético: experimentava de tudo sem medo e raramente torcia o nariz. Quanto mais exótico, melhor. E se viesse com doses generosas de alho e pimenta, ainda pedia para repetir.
Minha mãe era exatamente o contrário. Não se arriscava em pratos novos. Queijo, só se fosse tofu. A primeira vez que provou um cachorro-quente foi traumática: olhou para o pão com salsicha e preferiu passar fome. Macarronada? Só de pensar na acidez do molho de tomate dona Alice queria sair correndo.
E foram esses opostos gastronômicos que se aventuraram num restaurante brasileiro para comer feijoada, num sábado ensolarado em 1974, em Cidade Dutra. Os dois geralmente levavam marmitas, que comiam sentados sobre as sacolas de roupas que vendiam de porta em porta, à sombra de árvores. Mas naquele dia, seu Roberto prometeu que levaria dona Alice para experimentar um prato típico. Minha mãe mal podia esperar.
Depois do que pareceram horas, a feijoada chegou. Meu pai abriu um sorriso, como se reencontrasse um velho amigo. Minha mãe olhou para a combinação de branco, preto, verde e laranja e perguntou, perplexa: "Mas o que é isso?" Não houve explicação que a convencesse a provar.
Dona Alice hoje dá risada: "Eu morrendo de fome e da cozinha chega aquele prato enorme, com fumaça saindo, um caldo preto, pedaços de coisas que eu não sabia o que eram. Aquilo não tinha como ser bom".
Com o tempo, dona Alice foi se acostumando com a ideia de feijoada. Quando éramos pequenos, havia um bar em nosso quarteirão (que ficava exatamente na frente do poste que servia de pique quando brincávamos de pega-pega), onde tio Rufo e tia Maria serviam feijoadas caprichadas. Meu pai nos mandava lá sábado sim, sábado não, com duas panelas vazias, que vínhamos equilibrando no caminho de volta. Enquanto dona Alice dava provadinhas tímidas, seu Roberto e a criançada se esbaldavam.
Quase quarenta anos depois, hoje minha mãe é uma profunda apreciadora do prato. E como numa ironia do destino, há cinco anos temos ao lado da loja a companhia do Benjamim Botequim, que aos sábados começa a preparar cedinho a feijoada que faz a alegria dos moradores do Campo Belo. O festival de aromas invade o bazar sem dó: alho fritando, feijão no fogo, couve, mandioca, paio, costela, carne seca... Mal chega meio-dia e dona Alice já começa a pensar no almoço.
Nada como uma feijoada após a outra.


terça-feira, 21 de junho de 2011

final feliz

Não me lembro exatamente quando minha mãe começou a me contar suas histórias. Lembro-me apenas de que eu ainda era muito criança e de que todos aqueles episódios, contados num português que me soava um tanto estranho, me pareciam saídos de um livro. Sem nunca ter colocado os pés em Taiwan e muito nova para ter qualquer memória sobre os fatos relatados, foi a partir das descrições de dona Alice que construí em minha imaginação um filme mirabolante onde minha mãe era a protagonista: arrozais a perder de vista ("lá embaixo da montanhinha"), plantações de chá e a vida pacata de interior; depois, a rotina glamourosa na capital Taipei, com carros e luzes por todos os lados, onde ela era chefe de departamento de uma fábrica; e finalmente o casamento com meu pai, a vinda ao Brasil, o começo sofrido e todas as conquistas que se seguiram.
Também não me lembro com precisão quando as histórias começaram a perder seu encanto. Lembro-me apenas de já ser adolescente e de que, um dia, as histórias pareciam todas repetidas. Já havia memorizado todas as peripécias de dona Alice, já sabia como terminavam as aventuras. Ficava irritada quando notava que estava prestes a ouvir a mesma história. Fazia cara de tédio e dizia, em tom de reprovação: "Ai, mãe, de novo?" Dona Alice imediatamente mudava de assunto.
Mas o tempo faz maravilhas e hoje entendo a necessidade que minha mãe tinha - tem - de contar e recontar tantos episódios de sua vida. As pessoas que habitavam suas histórias haviam ficado para trás, emolduradas num outro tempo, em sua terra natal. No Brasil, só ela sabia o tamanho das dificuldades que havia superado, num português aprendido a duras penas. A sua havia sido, de certa forma, uma jornada solitária e sem testemunhas. Mas ao colocá-la em palavras, tudo aquilo se tornava real novamente. Então percebi: ela não contava suas histórias para mim - contava para si mesma.
O que nem eu nem ela sabíamos na época é que, ao dividir suas histórias comigo, dona Alice me apresentava a um mundo a que eu dificilmente teria acesso de outra forma. Quando fui a Taiwan pela primeira vez, com 15 anos, visitei alguns lugares que ela descrevia tão vividamente em suas histórias. E a Taiwan da minha imaginação, construída a partir dos olhos de minha mãe, era muito mais bonita, mais simpática, mais colorida. Um presente que ninguém mais poderia ter me dado.
Hoje, quando minha mãe começa a contar suas histórias, sento para ouvir. E aproveito para fazer perguntas, porque com as perguntas certas, dona Alice sempre lembra de algum detalhe novo, da estampa do vestido, do tio que faltou à festa, da piada que estava sendo contada na ocasião. E o fato de já saber como a história termina não me incomoda mais. Afinal, quem não gosta de ouvir histórias com finais felizes?

terça-feira, 24 de maio de 2011

ídolos

Dona Alice viu toda uma geração de crianças crescer no Campo Belo. Muitos deles hoje são pais de filhos adolescentes, mas continuam clientes do bazar, nem que seja para comprar uma pilha e dar um beijo em minha mãe.
L. é uma das crianças que passou a infância na loja. Gordinho desde pequeno, passou por um estirão na adolescência, mas engordou com a mesma velocidade com que chegou aos seus 1,80m. Bom de garfo e com pai obeso, ao entrar na fase adulta L. já passava com folga dos 100 quilos.
Depois de muito ponderar, o rapaz acabou por se submeter à cirurgia de redução de estômago. Emagreceu rapidamente e começou a malhar. Nunca ficou exatamente magro - seu novo físico ficava no limite entre o sarado e o "cheinho". Mas ficou mais vaidoso e passou a chamar a atenção das mulheres. Desfez o casamento com sua esposa, que conheceu ainda adolescente, e na sequência engatou um relacionamento com outra moça, com quem deve se casar ainda esse ano.
Dia desses, L. passou no bazar da dona Alice para fazer algumas compras. Estava de cabeça raspada, estilo que parece estar na moda. Minha mãe, que não acompanha as tendências fashion e sem entender por que alguém gostaria de ficar careca, perguntou:
- "Mas L., por que você está careca?"
- "Ah, dona Alice, para ficar mais bonito. Não estou parecido com o Vin Diesel?"
Dona Alice, que não conhecia o ídolo em questão, olhou para L. de alto a baixo e concluiu:
- "Não. Está parecido com o Buda."
A loja toda caiu na gargalhada, inclusive L. Cada um trabalha com as referências que tem.


domingo, 22 de maio de 2011

comida chinesa

Moradora do Campo Belo há 35 anos, dona Alice conhece todo mundo que mora ou passa por aqui, inclusive os carroceiros, que sempre encontram pilhas de papelão para reciclagem no bazar. Quando minha mãe resolve fazer a limpeza nos armários, às caixas de papelão somam-se sacolas e sacolas de roupas e sapatos.
Há alguns anos, Dona Alice conheceu Rafael, um menino que passava diariamente pela loja com os pais, carroceiros e invariavelmente negligentes e alcoolizados. Enquanto o casal se revezava para puxar a carroça, Rafael ficava responsável pelos irmãos menores, que acompanhavam as andanças da família pelas ruas de São Paulo em cima de caixas de papelão e outros objetos que encontravam pelo caminho.
Uma tarde, Rafael parou na loja e pediu um lanche. Com dó, minha mãe foi até a cozinha e encheu uma panela de comida. Chinesa. Que Rafael levou para casa, provou e concluiu que estava estragada.
No dia seguinte, o adolescente apareceu na loja xingando dona Alice, acusando-a de querer matar sua família. Minha mãe tentou explicar, mas não adiantou. Ele tinha certeza de que aquele gosto que não conhecia vinha de alguma comida que havia feito aniversário na geladeira e que minha mãe havia repassado a ele.
Daquele dia em diante, Rafael, que crescia a olhos vistos e emagrecia com a mesma evidência por causa do crack, parava todos os dias na frente da loja e ameaçava dona Alice. Gritava da rua, para quem quisesse ouvir, que a chinesa da loja havia tentado matá-lo. Minha mãe, depois de algumas tentativas de explicar o ocorrido, passou a ignorar a gritaria. Até que ele se cansava e ia embora. Depois de algum tempo, não vimos mais Rafael. Soubemos depois por vizinhos que ele havia sido preso por uma série de roubos no Campo Belo.
Mesmo depois desse episódio, dona Alice continuou ajudando os carroceiros. Mas agora, só com papelão.

terça-feira, 26 de abril de 2011

ODD

Da série "Confusões de dona Alice"

Quando eu era pequena, o detergente que usávamos em casa era o ODD, da Bombril. Ele vinha num frasco transparente, como esses de hoje, mas o líquido azul me deixava intrigada. Verde tinha cheiro de limão, amarelo de laranja... mas e azul, tinha cheiro de quê? No frasco dizia neutro, que para mim, naquela idade, era o mesmo que dizer nada.
Pois bem. ODD para nós era sinônimo de detergente, assim como Cândida até hoje é sinônimo de água sanitária. Recentemente fui descobrir que, para minha mãe, detergente e ODD eram muito mais que sinônimos.
Dona Alice estava lavando louça e, com a pia ainda cheia, notou que o detergente havia acabado. Enxaguando uma tigela, me pediu:
"Filha, vai lá no armário ver se tem mais o dedegente."
"Mais o que, mãe?"
"ODDgente", repetiu, me mostrando o frasco de detergente vazio. "Acabou ODDgente."
Para dona Alice, ODD e detergente não são sinônimos: são a mesma palavra. Anos depois de ter saído de linha, o ODD, quem diria, ainda conta com uma cliente fiel.



terça-feira, 12 de abril de 2011

armada e perigosa

O Campo Belo vem passando por uma transformação estranha esse último ano. Num período curtíssimo, uma pequena cracolândia se formou ao longo do córrego que deu o nome à antiga avenida Águas Espraiadas, atual Roberto Marinho. Passando pela região é fácil identificar os pequenos conglomerados, roupas nos varais improvisados, gente fumando crack. Não é raro ver motoristas parados no trânsito se assustarem com uma pessoa que, de repente, sai de dentro do córrego.
O resultado são mendigos dormindo em calçadas e garagens, pedintes nas entradas de supermercados e padarias, usuários de drogas se aventurando perigosamente por avenidas cheias de carros, num torpor inconfundível.
Vários moradores dessa nova comunidade que se estabeleceu no Campo Belo passam na frente do bazar diariamente. A maioria são homens feitos, que andam pelo bairro desocupados, pedindo comida, água, sacolas plásticas e trocados, num tom que fica entre o pedido e a ameaça.
Dona Alice morre de medo dessas situações, não apenas por ela, mas por todos na loja. Com ela e as balconistas são três mulheres tomando conta do bazar. A clientela é essencialmente formada por velhinhas, jovens mães e crianças pequenas. Até o cachorro é fêmea. Dona Alice tem experiência de sobra para justificar o excesso de zelo - nunca se sabe do que esses sujeitos são capazes.
Outro dia, um grupo de rapazes visivelmente sob efeito de drogas parou na frente da loja pedindo água. Minha mãe, já saindo de detrás do balcão, disse que não tinha. Os garotos insistiram. Dona Alice não se mexeu. Contrariados, passaram a xingá-la e a ameaçá-la com palavras impublicáveis.
Sozinha na loja, dona Alice não teve dúvidas: pegou a raquete amarela de matar pernilongos, daquelas encontradas por R$ 15 em qualquer cruzamento de São Paulo, e correu até a entrada.
- "Olha, é melhor vocês irem embora porque eu estou armada", disse, mostrando a raquete em punho. "E essa raquete TEM LUZ!"
Os marmanjos se entreolharam e, sem saber como reagir diante da chinesa que pretendia defender sua loja com uma raquete, saíram xingando. Depois que viraram a esquina, dona Alice se acomodou novamente no seu banquinho e voltou a ler seu jornal - mas deixou sua arma pertinho, só para prevenir.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

bênção

Meu pai foi o primeiro e único namorado de minha mãe. Ela o conheceu quando tinha 18 anos e, depois de cinco anos separados, enquanto meu pai tentava a vida do outro lado do mundo, deu um ultimato ao rapaz: ou ele voltava para Taiwan, eles se casavam e iam juntos para o Brasil ou eles se separavam e cada um ia para seu lado.
Meu pai, que nunca foi bobo, largou tudo e voltou para Taiwan para casar com minha mãe. Vieram juntos para o Brasil em 1973 e fizeram daqui sua casa.
Depois de 31 anos casados e uma vida inteira juntos, meu pai faleceu em novembro de 2004. De repente, dona Alice se viu sozinha, num país que não era o seu, sem família por perto. Ela, que nunca tinha tido medo de nada, de repente se viu com medo de tudo: do escuro, do silêncio, do presente, do futuro e, principalmente, da solidão.
Dona Alice tinha apenas 54 anos quando ficou viúva. Jovem e bonita, ela tinha tudo para voltar ao circuito. Nós mesmos nos perguntávamos se, passados alguns anos, minha mãe não deveria arrumar um namorado - não alguém que substituísse meu pai, mas alguém para dividir a vida com ela.
Minha mãe nem cogitava o assunto. Na cultura chinesa, quando a mulher se casa, ela passa a pertencer à família do marido. Não é só uma questão de sobrenome, mas de prioridades e funções. Dona Alice era casada com o filho mais velho dos meus avós, com uma função muito clara na hierarquia familiar. Suas responsabilidades como nora e cunhada mais velha continuariam, mesmo que meu pai não estivesse mais aqui. Era o que se esperava dela, era o que ela entendia ser seu papel. Para dona Alice, se envolver com outra pessoa seria uma traição. Quase como pedir para trocar de pai e mãe.
Um dia, não muito depois do falecimento de meu pai, minha avó chamou minha mãe num canto. Minha avó, que havia segurado bravamente as lágrimas ao ver meu pai debilitado na cama do hospital. Minha avó, que só foi comunicada da morte de seu filho uma semana depois do enterro, porque temiam que ela não resistisse à notícia. Minha avó, que tinha verdadeira adoração pelo seu primogênito. Essa avó sentou com minha mãe e disse baixinho, com sua sabedoria anciã:
- "Você ainda é jovem, vai viver muito tempo. A vida sozinha é muito triste. É importante ter alguém para dividir o futuro, para fazer companhia. Se você quiser casar de novo, pode se casar. Não importa o que digam. Você pode casar."
Dona Alice apertou as mãos enrugadas de minha avó entre as suas e abriu um sorriso de gratidão. Não porque tivesse considerado a possibilidade ou porque quisesse se casar de novo, mas pela generosidade de minha avó. Naquela tarde, só elas duas em casa, minha avó deixou claro que a felicidade de minha mãe era mais importante que os protocolos. E saber disso era um alívio.